Existem várias maneiras de se conhecer uma pessoa. Você pode encontrá-la no trem, esbarrar com outra na escola ou faculdade, talvez até mesmo naquela fila chata e gigantesca do ônibus, enfim, as oportunidades são muitas. Entretanto, creio que não são muitas as pessoas que podem se dizer que se conheceram na noite de ano-novo no topo de um prédio onde foram para cometer suicídio.

Martin é um apresentador de TV cuja carreira só despenca e vive aparecendo nos tabloides desde quando foi descoberto o seu relacionamento com uma garota menor de idade. Jess é uma adolescente punk, que ama festas e baladas o mesmo tanto que ama irritar seus pais, que diz o que lhe vier a cabeça — normalmente palavrões, aliás. Maureen é uma mulher religiosa com 51 anos e que deixou sua vida de lado há 19 anos para se dedicar exclusivamente ao filho deficiente. JJ é um entregador de pizzas americanos, cujas maiores paixões era tocar numa banda de rock, porém, a banda acabou. Ah! E a sua antiga namorada pela qual se mudou para Londres agora é sua ex. E é no terraço do Toppers’ House que estas quatro pessoas totalmente diferentes entre si se conhecem e decidem escolher a queda mais longa.

Se consigo explicar por que queria pular do alto de um prédio? Claro que consigo explicar por que queria pular do alto de um prédio. Não sou um completo idiota. Consigo explicar porque não tinha nada de inexplicável: foi uma decisão lógica, tomada após a devida reflexão. Nenhuma reflexão lá muito série também. […] Simplesmente não havia razões suficientes pra me arrepender, e havia um montão delas pra pular.

Basta dar uma olhada nas resenhas pela internet para perceber que este é aquele tipo de livro que ou você ama, ou você odeia, sendo poucas as pessoas que ficaram em um meio termo. Por sorte, eu fui um daqueles que amou este livro e me apaixonei pela escrita do Hornby logo de primeira.

Com ironia e sarcasmo praticamente escorrendo das páginas de Uma Longa Queda, o autor cria uma história interessante e que consegue ter seus momentos de leveza, embora tenhamos as dificuldades na vida de cada personagem e o suicídio seja um dos temas centrais. Aqui Nick Hornby acaba criando uma divisão entre as pessoas capazes de subir ao topo do prédio e olhar para baixo pensando em se jogar, mas que dão meia volta, e aquelas que não veem outra saída se não saltar de uma vez de lá; desta forma, somos capazes de compreender muito melhor cada um dos membros do quarteto.

O grande trunfo do livro são os seus personagens construídos nos mínimos detalhes e com tanta força que passam a sensação de que são pessoas reais e que Hornby só conta a história delas. Há muito tempo não via um autor usar tão bem a alternância dos pontos de vista da narração em primeira pessoa entre os personagens principais, conseguindo se aproveitar desta escolha para construí-los e desenvolvê-los, explicar os passados deles e justificar suas ações, além de narrar as histórias e acontecimentos de uma forma bem característica para cada um, respeitando as personalidades, opiniões e crenças da Jess, Maureen, JJ e Marvin, e até usando as diferenças entre eles para mostrar a mesma cena sobre ângulos completamente distintos.

Uma Longa Queda foi a minha primeira leitura de um livro do Nick Hornby, e do jeito que a sua narrativa e seus personagens me cativaram certamente não será a última. Ele consegue criar um relacionamento crível entre quatro pessoas completamente diferentes e que têm tendências suicidas sem soar forçado (ou até piegas), respeitando a essência de cada um e mostrando que eles só buscam apoio uns nos outros por terem vivenciado aquilo juntos.

O problema com a minha geração é que todos pensamos que somos umas porras de uns gênios. Produzir alguma coisa não basta pra gente, nem vender alguma coisa, ensinar alguma coisa, ou mesmo simplesmente fazer alguma coisa; precisamos ser alguma coisa. É nosso direito inalienável, como cidadãos do século XXI.


51HTbwDqWZL._SX342_BO1,204,203,200_Autor: Nick Hornby
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Número de páginas: 273
Sinopse: Quatro personagens sem nada em comum, a não ser a vontade de botar um ponto-final em suas vidas, se encontram no alto de um prédio em Londres, na noite de Ano-Novo. Tomados pelo impulso solidário de não permitir que os outros se atirem, os dois homens e as duas mulheres acabam adiando a decisão de morrer e formam um peculiar grupo de apoio à vida.

Mas o pacto de sobrevivência é descoberto pela imprensa local, que se regozija com a história pouco convincente de que naquela noite o apresentador de tevê Martin Sharp e seus amigos receberam a visita de um anjo que lhes convenceu a não pular. O que o público não sabe é que a história fantasiosa foi inventada como parte dos planos de sobrevivência criados pelos quatro, que, imbuídos da tarefa de se manterem vivos até pelo menos o Dia dos Namorados – outra data bastante requisitada para suicídios -, têm como objetivo apenas tornar a vida mais divertida até o próximo compromisso.

Utilizando os recursos narrativos que consagraram seus livros anteriores, Nick Hornby emprega em Uma longa queda o humor autodepreciativo e as referências à cultura pop, mas prepara uma surpresa para os leitores ao tratar de temas tão polêmicos como o suicídio, a pedofilia, o abandono afetivo da família e a incapacidade mental. Tidos como especialidades da ciência ou material para a literatura de autoajuda, os abismos psíquicos e sociais surgem no livro em sua forma mais evidente e humanizada, como histórias vividas por pessoas comuns – e que por isso mesmo não escapam de um certo ridículo da experiência do dia a dia.