Certo dia, enquanto entrava no site da Amazon, vi que este ebook estava (e ainda está) gratuito e logo cliquei no botão para enviá-lo para o meu Kindle. Poucos dias depois li o livro inteiro em menos de meia hora e a única reclamação é: por que este livro é tão curto?

Sejamos Todos Feministas é, na realidade, uma palestra dada pela autora nigeriana ao TED Talks, uma série de conferências organizadas pela instituição sem fins lucrativos, que trazem vários formadores de reunião e os fazem disseminar suas ideias, e acaba que boa parte de trechos de seus vídeos é amplamente compartilhada pela internet. Depois do sucesso de sua palestra, o discurso acabou virando o livro We Should All Be Feminist, que acabou vindo ao Brasil pela Companhia das Letras, assim como seus outros livros: Hibisco Roxo, Americanah e Meio Sol Amarelo.

O livro já começa com ela lembrando da primeira vez em que foi chamada de feminista, no qual um amigo utiliza o termo como algo pejorativo, ruim, tanto que ela se lembra que o tom de voz era como se ele a estivesse acusando de apoiar o terrorismo. E, ao longo do livro, Adichie vai se lembrando de vários momentos em que foi “acusada” de ser feminista, como se isto fosse algo terrível. Assim, o que a autora faz ao longo do livro é simplesmente explicar o que é o feminismo e a necessidade de sua inclusão em nossa sociedade por meio de situações cotidianas.

Eu tinha catorze anos. Um dia, na casa dele [deste amigo], discutíamos – metralhávamos opiniões imaturas sobre livros que havíamos lido. Não lembro exatamente o teor da conversa. Mas eu estava no meio de uma argumentação quando Okolomo olhou para mim e disse: “Sabe de uma coisa? Você é feminista!” Não era um elogio. Percebi pelo tom de voz dele – era como se dissesse: “Você apoio o terrorismo!”.
Não sabia o que a palavra “feminista” significava. E não queria que Okoloma soubesse que eu não sabia. Então disfarcei e continuei argumentando. A primeira coisa que faria ao chegar em casa seria procurar a palavra no dicionário.

Um dos pontos fundamentais de Sejamos Todos Feministas é que Chimamanda Adichie, aparentemente, não visa um público exclusivamente feminino e, desta forma, ela também exemplifica que o feminismo é importante não só para as mulheres, como também para os homens. Ela questiona, por exemplo, a quase que obrigatoriedade que é imposta aos homens de ser aqueles que pagam a conta do restaurante – como se “pressionados a provar sua masculinidade por meio de bens materiais” – ou de esconder suas emoções e fazer com que ajam “como durões“.

Adichie também desconstrói o sentido normalmente negativo que cai sobre a palavra feminista, muitas vezes devido a mulheres que praticam extremismos e que deixam de querer atingir o próprio objetivo do próprio feminismo, que é homem=mulher, e passam a fazer algo que este mesmo condena: uma superioridade do sexo feminino sobre o sexo masculino. Ela lembra que feminismo não deve ser tratado como terrorismo, mas que também não deve ser praticado como tal.

O melhor exemplo de feminista que conheço é o meu irmão Kene, que também é um jovem legal, bonito e muito másculo. A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: “Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar”. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar.

E a retirada deste peso negativo da palavra feminista é fundamental, o exemplo mais básico dado pela própria autora é que certa vez, durante a divulgação de uma de suas obras, um jornalista na Nigéria deu o conselho para que ela “nunca, nunca se intitulasse feminista, já que as feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Então decidi me definir como ‘feminista feliz’“.

Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie, é uma leitura fundamental para qualquer um, simpatizante ou não com o feminismo, ele nos lembra que embora as leis muitas vezes digam que garantem uma igualdade entre os gêneros, ainda há um abismo na sociedade que impede isto. Por fim, fica o convite da autora para sermos todos feministas ou, simplesmente, mais humanos.

5/5


A1YcHusVDfL._SL1500_Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Número de páginas: 64
Sinopse: O que significa ser feminista no século XXI? Por que o feminismo é essencial para libertar homens e mulheres? Chimamanda Ngozi Adichie ainda se lembra exatamente do dia em que a chamaram de feminista pela primeira vez. Foi durante uma discussão com seu amigo de infância Okoloma. “Não era um elogio. ‘Percebi pelo tom da voz dele; era como se dissesse: Você apoia o terrorismo!’.” Apesar do tom de desaprovação de Okoloma, Adichie abraçou o termo e – em resposta àqueles que lhe diziam que feministas são infelizes porque nunca se casaram, que são “antiafricanas” e que odeiam homens e maquiagem – começou a se intitular uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”. Neste ensaio preciso e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para mostrar que muito ainda precisa ser feito até que alcancemos a igualdade de gênero. Segundo ela, tal igualdade diz respeito a todos, homens e mulheres, pois será libertadora para todos: meninas poderão assumir sua identidade, ignorando a expectativa alheia, mas também os meninos poderão crescer livres, sem ter que se enquadrar em estereótipos de masculinidade. Sejamos todos feministas é uma adaptação do discurso feito pela autora no TEDx Euston, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações e foi musicado por Beyoncé A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.