“Na disputa entre o céu e o inferno, nós somos o prato principal.”

E O BANQUETE ESTÁ SERVIDO.

A arte é motivo de inspiração para muitos, obras de arte possuem traços tão únicos que podem oscilar de meticulosos a alvoroçados, enquanto as cores contrastam em tons que despertam inúmeros sentimentos e não há nada como a experiência de estar diante de um quadro pela primeira vez. Há quem alegue que a arte é uma dádiva de Deus para nós expressarmos o que há de mais profundo em nosso interior, dádiva essa que foi usada por séculos em seu nome para ilustrar toda a sua glória. Mas a arte cativou até mesmo Hitler quando esse visitou a França e, o que muitos não dizem, é que a arte pode igualmente expurgar nossos piores demônios e, ainda não bastasse isso, a arte é a principal chave para também pincelar o inferno como o conhecemos. Ou pensávamos conhecer.
Wladimir Lester vivia com sua tribo cigana até que sua irmã foi aconselhada a abandoná-lo em algum lugar e sair da cidade com o restante de sua tribo. Por ter pena do garoto, ela preferiu deixá-lo em um mosteiro sob a custódia do padre Giordano. Lester de inicio fica recluso, não se mistura com os outros garotos, é introvertido, cético quanto a doutrina religiosa, só se relaciona com o padre ou a madre Suzana, preferindo ficar com suas obras e esculturas em seu quarto privado e tem um forte sentimento de protecionismo para com a sua tinta especial que carrega sempre em seu bolso e com a estatueta da santa Ciganinha, que ele vê como a uma mãe. O problema é que em meio a toda essa bagagem, Wladimir também trouxe o mal consigo para o lar em que agora vive. Mal esse que se estenderá por séculos e culminará em outras três novelas que estão amarradas à essa história. Um mal que fará o próprio Diabo caçá-lo por gerações.

Anos mais tarde, já no segundo conto, Nôa, um pintor fracassado, encontra-se em total decadência dentro de seu quarto, fixado em um diário que furtou de uma loja de livros do centro. O diário pertence a uma parente distante de Wladimir Lester e nele há relatos do tempo em que o garoto havia ficado na tribo. Essa fixação dele pelo diário deve-se ao mito que se alastrou após os fatos corriqueiros do primeiro conto e Nôa procura pelas obras e pela tinta especial que tornou o nome Lester uma lenda, fazendo o homem abandonar a esposa e seguir as pistas que encontrou no diário sobre o paradeiro do garoto. Nessa busca por fama, dinheiro e poder, somos introduzidos ao ego do ser humano em sua melhor representação. O que Nôa não sabia, é que sua ambição desencadearia um mal que jamais deveria ser despertado. Acelerando ainda mais os planos do Diabo para rechear o inferno.

Sonhos são milagres que escaparam do céu. Vou dizer uma coisa, meu amigo, alguém que não sonha, que não abusa da sorte e não se arrisca, não deveria estar vivo. Eu mesmo já arrumei todo tipo de confusão por causa de um sonho. Mas não vou dizer qual foi, também tenho meus segredos. Só que quando eu realizá-lo, meu maior sonho, ah, Nôa… Eu vou virar o mundo do avesso.

Marcos, um técnico de informatica e protagonista do terceiro conto, leva uma vida frustrada e infeliz. Sua esposa, Odeta, que, segundo Marcos, há muito se definhou e seu filho, Randy, que possui necessidades especiais, são os únicos motivos pelos quais ele continua trabalhando arduamente para garantir o sustento de todos. Marcos é um pai amoroso, embora seja um péssimo marido, um tradicional pai de família que luta em busca de uma vida mais digna a cada dia. Seu destino muda quando Marcos atende um serviço na casa de uma cigana. Sem ter como devidamente pagar ao homem, a cigana o paga com a permissão de que faça um pedido à estatueta da ciganinha. E seus mais profundos pensamentos fazem com que toda a sua vida leve uma reviravolta. A esposa de Marcos passa a se cuidar, seu filho se torna um garoto prodígio e de QI elevado, Marcos também consegue um emprego melhor e ainda conquista uma amante, Catarina, filha de um ex-cliente. Só que palavras tem poder e nem tudo vem de graça, logo Marcos se depara envolvido com uma série de assassinatos em sua cidade e, pior, o próprio assassino, também conhecido como Açougueiro, por sua habilidade em fatiar e estripar pessoas, o tem perseguido.

Os três primeiros contos se entrelaçam e rumam ao quarto conto. Lucrécia é uma garçonete de um bar e presencia uma reunião de Lúcifer com os seus servos, onde acaba ouvindo os planos do Diabo, unindo-se a ele e se comprometendo com uma missão de extrema importância para, finalmente, equilibrar a vantagem do Demônio na batalha contra os céus. Lucrécia levou uma vida que a tornou amarga e não muito simpatizante do cara lá de cima justamente por sentir-se abandonada por ele. A expansão de toda a mitologia criada pelo Bravo acontece mesmo quando Lucrécia visita o Inferno e lá descobre como realmente funciona as seções, o que cada alma merece e pra qual canto elas vão, a hierarquia e os planos de Lúcifer dos quais a mulher passa a compactuar.Personagens que conhecemos anteriormente voltam desempenhando papéis fundamentais para o desfecho do livro. Lucrécia representa muitos de nossos sentimentos que tanto tememos em sequer pensar por conta de nosso Deus onipresente. Os diálogos, os pensamentos, as reflexões e as atitudes dela são simplesmente sentimentos sinceros que o autor soube aproveitar bem ao escrever a obra, afinal, temos essa mesma voz ecoando em nossas mentes. Fazendo-nos simpatizar com uma personagem que é um belo exemplo de blasfêmia e testando a nossa própria fé, Cesar Bravo traz a realidade à tona e as verdades na cara. E com isso, é hora de o Diabo contra-atacar.

Eu tive uma discussão com um cara uma vez. E ele me disse que eu não poderia vencê-lo em uma disputa justa. Bom… Tudo se resume a isso. Ele sequestra pelo amor e eu pelo favor; a dor, nós dois usamos. E olha que eu vinha ganhando fácil há muito tempo, mas essa porcaria de internet… Mulher, isso acabou comigo. Agora todo mundo conhece tudo, lê tudo e desacredita em tudo. Nem eu ou Ele – apontou para cima – valemos muita coisa se não acreditarem em nós. Talvez precisamos rever todo esse nosso negócio, mas quer saber? Eu ainda pretendo ganhar essa aposta… E quando ganhar, vou provar quem é quem no mundo.

O universo do autor é rico em detalhes, enredo e personagens. A construção da narrativa em histórias que se cruzam é um feito que poucos conseguem realizar com tamanha maestria. Quando Nôa se definha cada vez mais em nome de sua ascensão como artista, a história me lembrou o conto O Retrato Oval, de Edgar Allan Poe, que junto a H. P. Lovecraft serviu de inspiração para o autor e trouxe um clima mais assombroso para a segunda trama. Enquanto que passagens mais sangrentas na história do Marcos são reflexos do amor incondicional de Cesar pelas obras do Clive Barker, aliás, vou confessar e dizer que a minha novela favorita é justamente essa.

O intrigante é saber que o mundo em que Lester, Nôa, Marcos e Lucrécia vivem é a nossa realidade. Diariamente vivemos entre o céu e o inferno e a todo momento lidamos com ambos. Noite após noite, o inferno se expande sob os nossos pés. Cada vez mais o ceticismo da humanidade faz os dois lados perderem fiéis e a ciência contribui para o pensamento lógico. A fé esta abalada. Cesar Bravo nos coloca em seu universo não só pra enfrentar as forças do bem e do mal, mas também para enfrentar nossas próprias crenças. Aproveitando que o autor fez uma referência à Harry Potter no livro, vou parafrasear uma frase que define bem a mensagem que o livro traz e que acho bem assustadora se colocada sob um certo ponto de vista:

O mundo não é divido entre o bem e o mal. Há luz e trevas dentro de todos nós.

A edição da Darkside faz jus a uma obra de arte. Na capa, há uma cruz envolta em neon vermelho e um garfo estampado em cima da cruz. A folha de guarda é digna de ser comparada as obras de Bosch, em especial à Jardim das Delicias, pois vários demônios são representados em meio a humanos em delírio, tudo pintado com a tinta vermelha especial de Lester, é claro. O livro acompanha uma fita de cetim vermelha e várias artes obscuras ao longo das páginas que são de arrepiar qualquer um.

A Caveirinha apostou no terror nacional e acertou certeiramente ao publicar o mestre Bravo. É de tamanha qualidade a sua escrita, seu universo literário e seu talento que digo que o autor tem potencial e mérito de ser citado junto a grandes nomes do terror. A literatura brasileira está muito bem representada e fico feliz que Cesar Bravo seja nosso porta-voz. É garantido que com o maior prazer colocarei suas obras em minha estante e contarei suas histórias aos ouvidos audaciosos que quiserem saber um pouco mais do inferno que nos rodeia.


Autor: Cesar Bravo 
Editora: Darkside Books
Ano: 2016
Páginas: 384
Sinopse: O pacto foi selado em latim e da união entre Cesar Bravo e a editora mais sombria do mercado nasceu um livro visceral. ULTRA CARNEM expande a sua obra mais popular, com quatro histórias que despem o irreal e tem como elo um olhar sarcástico de quem observa o mundo e compreende que na disputa entre o Céu e o Inferno nós somos o prato principal. Narrativas insanas, repletas de pactos, demônios, conversas capciosas, sangue, socos na boca do estômago e… bom, a gente não vai contar tudo.