Eu já nasci num mundo em que palhaços simpáticos com balões podem não ser apenas palhaços simpáticos com balões, em que ouvir alguém dizer que era o fã número 1 de alguém dá um frio na espinha, em que um hotel em meio a uma nevasca habita os pesadelos das pessoas e um baile na escola pode ser sangrento. Eu já nasci em um mundo que teve seus medos moldados pelas mãos – e pelas palavras – do Stephen King.

Cada introdução, prefácio e posfácio escritos pelo norte-americano dão pequenos vislumbres de sua vida, de sua obra e do que o faz continuar escrevendo depois de mais de 40 anos de seu primeiro romance publicado, Carrie, mas são poucos os mergulhos que King permite que deem em sua vida (estamos falando do cara que criou Annie Wilkes, não é mesmo?). Um deles é o livro Sobre a Escrita, em que faz relatos autobiográficos, enquanto destrincha a arte de escrever, o outro é Coração Assombrado, biografia não autorizada escrita por Lisa Rogak e publicada em 2013 pela Darkside Books.

Dividido em 14 capítulos, o livro apresenta a história da vida de Steve de maneira linear, entrelaçando sua vida pessoal ao seu processo criativo, mostrando como um formou e modificou o outro (e vice-versa). Assim, vemos sua infância pobre, com sua mãe se esforçando para criar e educar os dois filhos sozinhas e seus problemas no colégio, mostrando como ele já era um observador nato do comportamento humano e a maneira como se sentia acolhido no meio de histórias, seja lendo-as, vendo-as ou até as escrevendo. Desse ponto em diante, vemos esse residente permanente da “República Popular da Paranoia” ir à universidade, escrever, ser publicado, tornar-se famoso, ter problemas com drogas e chegar onde chegou: ser um dos mais importantes e conhecidos autores de seu tempo, ainda que não tão reconhecido por parte dos tais defensores da “alta” literatura por abraçar o pop.

A literatura deve ser algo tórrido e próximo. Quero que ela alcance a pessoa, agarre-a e a prenda em um abraço ardente, sem deixá-la partir. Sempre busquei machucar o leitor e, ao mesmo tempo, diverti-lo. Acho que um livro deve ser uma coisa realmente viva e perigosa, em várias maneiras. – Stephen King

A primeira coisa que chama a atenção é o quão fundo Rogak se jogou em suas pesquisas para captar e recolher o máximo de informações possíveis e a maneira como ela consegue passar tudo de forma coesa e simples para o leitor, apresentando, por exemplo, frases ditas em entrevista por King em períodos completamente diferentes, mas que fazem sentido estar juntas e ela as coloca na mesma página. Essa habilidade da autora enriquece a leitura e disseca mais o homem por trás da figura pública.

Outro ponto fantástico é a evidência que a biógrafa dá para duas figuras centrais – e completamente distintas – da vida de Steve: seu pai e sua mulher. Donald Edwin King é uma ausência que está presente durante toda a vida do autor e isso o torna um espaço em branco que fica marcado fundo na alma de King, impactando em sua obra. Já Tabitha Spruce talvez seja a maior responsável pelo sucesso de Stephen, ela é sua rocha sólida, a primeira crítica daquilo que ele escreve, a mulher que permaneceu ao seu lado nas horas mais difíceis, a que fez de tudo para que ele não parasse de escrever, além de ser incrivelmente genial, sarcástica e uma figura tão (ou mais) marcante que ele.

A maneira como Stephen King lida e encara os fãs é outro dos focos de Rogak. Ela retrata o sucesso de King simultaneamente à sua escalada da fama e à conquista de fãs, expondo a dualidade dessa relação ao mostrar o completo desconhecimento de Steve em saber o porquê as pessoas se interessam também por ele e não só por sua obra ao mesmo tempo em que ama ter seu trabalho lido por tantas pessoas e as ajuda de diversas maneiras. Inclusive exemplifica isso com situações como quando um “fã” invadiu a sua casa ou outro que foi de implorar a ele a xingá-lo de filho da puta estúpido.

Às vezes eu olho em seus olhos, e é como olhar dentro de casas vazias. Eles não sabem por que querem um autógrafo, apenas querem. Aí percebo que a casa não está somente vazia, está mal assombrada. – Stephen King

O entrelaçamento de vida pessoal e obra aponta a habilidade de King de absorver tudo que está à sua volta e transformar em histórias, exteriorizando seus medos para que eles deixem de assombrá-lo. Dessa forma, pequenas anedotas que são apresentadas saltam os olhos e fica fácil ver seus reflexos nos livros e contos escritos pelo autor, como quando é citado a máquina de escrever que sua mãe lhe deu, cuja letra M quebrou dele tanto bater, o que o obrigou a escrever à mão as letras que faltavam.

A edição da Darkside é um presente aos fãs, acompanhando o padrão de qualidade quase psicopata marcante da editora, trazendo um acabamento gráfico primoroso, boa tradução, notas de rodapé e uma rica parte extratextual. O único ponto que é válido ressaltar aqui é que o livro foi publicado em 2013 e, de lá para cá, King já produziu coisa nova, como a trilogia Bill Hodges, e livros e projetos que são citados no livro como em andamento já foram finalizados. Não é nada que prejudique a leitura e algo bem comum em biografias cujos biografados estão vivos.

Stephen King – Coração Assombrado, de Lisa Rogak, é uma pequena janela aberta direta para a vida e a obra de um dos mais prolíficos e populares autores de sua geração, mas que ainda é o mesmo garoto assombrado exorcizando seus medos em histórias que, agora, assombram a América e o mundo.

Acho que a América precisa do Papai Noel, e até certo ponto do coelho da Páscoa, e precisa muito do Ronald McDonald hoje mais que do Papai Noel. Mas a América também precisa de um bicho-papão. Como Alfred Hitchcock está morto, assumi o trabalho por algum tempo. – Stephen King


skingAutora: Lisa Rogak
Tradutora: Cláudia Guimarães
Editora: Darkside Books
Número de páginas: 320
Ano: 2013
Sinopse: A biografia de um dos escritores mais populares e intrigantes do mundo. Com mais de 300 milhões de livros vendidos e mais de 50 prêmios por suas obras, Stephen King tornou-se parte da história da cultura pop, reverenciado por críticos e milhões de fãs em todo o planeta. Mas quem é o homem por trás de clássicos do terror, suspense e sobrenatural como O Iluminado, Carrie – A Estranha e A Zona Morta? De onde vêm os seus fantasmas? O que assombra e inspira o homem que assusta e fascina tanta gente pelo mundo afora? E o que o leva a continuar a escrever, em ritmo alucinante, após uma carreira de quase quatro décadas?
Nesta obra indicada ao Prêmio Edgar Allan Poe de Melhor Biografia, a jornalista Lisa Rogak nos conduz, com rigor e cuidado, pelo universo peculiar de Stephen King. Reconstitui sua infância difícil – marcada pelo ausência do pai -, revela seus medos, resgata os primeiros contatos do jovem King com a escrita e sua luta contra a dependência química. Uma saga impressionante da pobreza à fortuna, da solidão à consagração. Stephen King, Coração Assombrado é uma aula sobre como encarar os monstros e fantasmas da vida real e dominá-los na ficção.