Estava eu na Bienal e, após me espremer e esperar na fila, finalmente entro dentro do estande da Intrínseca e encontro uma prateleira que parecia ter uma aura milagrosa para o meu bolso: Livros a 5 reais. Um acabou me chamando atenção por ser um thriller e sem muita expectativa, levei-o para o caixa junto com alguns outros. Hoje, após ter lido Ratos, digo que estes foram um dos cinco reais mais bem gastos da minha vida.

A história de Ratos pode ser divida em três partes, antes e depois da invasão, fora a própria invasão. A primeira é basicamente composta pela personagem principal Shelley contando a sua rotina e relembrando os ataques e a perseguição que sofreu anteriormente na escola por pessoas que já foram suas amigas, assim como a apresentação da a visão que a protagonista tem de mundo, no qual ela divide as pessoas entre ratos (aqueles que concordam com tudo e estão submissos a vontade alheia, sem nunca ter voz própria) e gatos (aqueles que tem iniciativa, tomam suas próprias atitudes e praticamente mandam nos ratos).

Minha mãe e eu vivíamos em um chalé a cerca de meia hora da cidade. Não foi fácil encontrar uma casa que satisfizesse as nossas exigências: no campo, sem vizinhos, com três quartos, jardins na frente e nos fundos. Um imóvel que fosse antigo (precisava ter “personalidade”), mas ao mesmo tempo confortável – um sistema de aquecimento moderno era essencial, pois detestávamos sentir frio. Precisava ser silencioso. Precisava oferecer privacidade. Afinal, éramos ratos. Não procurávamos um lar. Procurávamos um lugar onde pudéssemos nos esconder.

Nesta primeira parte, chama a atenção a brutalidade dos ataques que a protagonista sofre, Reece cria uma perseguição psicológica e física digna de grandes sociopatas, indo muito além dos clássicos xingamentos que na maioria das vezes é o ponto máximo que os autores mostram do bullying.

Para não dar spoilers, digamos que a segunda parte narra a invasão que ocorre na madrugada do aniversário de dezesseis anos da personagem principal e a terceira irá mostrar as consequências do que ocorre na segunda parte.

Posso dizer que a apresentação do estilo de como Gordon Reece escreve para mim, já que nunca havia lido um livro dele, com toda certeza me chamou a atenção. Contando toda a história com uma escrita muito bem detalhada e descritiva, o seu estilo mescla brutalidade com a normalidade, fazendo você questionar suas próprias convicções do que é certo e do que é errado, enquanto te chocará com outro acontecimento. Assim, embora seja uma leitura que vai fluir, será aquele livro que te fará coçar a cabeça e se perguntar o que você faria na situação dos personagens, esconderia-se na toca ou iria contra o que você é?

O núcleo de personagens é bem pequeno e praticamente só Shelley e sua mãe são desenvolvidas, mas isto não é algo ruim, posto que o autor te apresenta ambas de modo minucioso e que o relacionamento entre mãe e filha, uma apoiando e influenciando a outra, é extremamente interessante.

A edição da Intrínseca segue o padrão da editora, contando com papel Pólen e  uma diagramação simples, com alguns mimos. Ponto positivo para a composição de capa, que traz uma parede, suja de sangue e com uma toca de ratos (cortada de verdade na capa, com a palavra “ratos” sendo impressa no verso da orelha), que embora simples, dando um tom mais perturbador e de mistério para a capa da edição nacional que a estrangeira original (ao lado).

Com toda certeza uma das minhas leituras favoritas do ano, Ratos é aquele livro ao qual você se agarrará e que te fará prender a respiração a cada segundo, tornando impossível parar de ler a história de Shelley e sua mãe, que te fará questionar suas próprias ideias sobre o certo e errado.

5/5


Editora: Intrínseca
Ano:
2011
Autor(a):
Gordon Reece
Tradutor(a): Carolina Coelho
Páginas:
240
Sinopse:
 Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Shelley, vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, não frequenta a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe vivem refugiadas em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou elas enfim se sentem confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Mas, na noite em que Shelley completa dezesseis anos, um estranho invade a tranquilidade das duas e um sentimento é despertado na menina. Os acontecimentos que se seguem instauram o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.