Em tempos nos quais os mercados editorial e cinematográfico andam tanto de mãos dadas, é curioso pensar o quanto um livro pode ser ofuscado por sua contraparte audiovisual. O filme Psicose, dirigido por Alfred Hitchcock, não só foi um tremendo sucesso de bilheteria e reinventou o cinema, como também acabou encobrindo o livro homônimo, de 1959, escrito por Robert Bloch e que inspirou o longa-metragem do britânico. Só para se ter uma ideia, antes do relançamento do livro pela Darkside em 2013, a última edição dele era de 1964.

No livro, Marion Crane é uma mulher que rouba quarenta mil dólares do seu chefe para quitar as dívidas de seu noivo, Sam, para poder finalmente se casar, já que ele passa por problemas financeiros e resolveu que irá saldá-las antes de se casar. Tentando chegar à casa dele, que é em outro estado, ela se perde, sai da estrada principal e acaba resolvendo passar a noite no Motel Bates, um local isolado na beira de uma estrada secundária.

O local é gerido por Norman Bates, um homem de meia idade que dedicou a vida a cuidar do motel da família, ainda que a construção da outra estrada tenha minguado a quantidade de clientes, e de sua mãe, uma figura extremamente controladora e super protetora. Apesar da sua idade, ele nunca teve qualquer relacionamento e é mantido a rédeas curtas pela Mãe, que o obriga a fazer tudo o que ela quer à sua maneira. Vou parar de contar a história por aqui, porque ela já é bastante conhecida e, caso você não a conheça, aposto que quanto menos você souber, mais vai se surpreender durante a leitura.

Para se ter uma ideia do impacto do desfecho da história, é que o Hitchcock acaba adquirindo anonimante os direitos para adaptar Psicose para os cinemas e manda comprarem todos os exemplares do livro para que as pessoas não lessem e descobrissem o final.

Robert Bloch, o autor do livro

Robert Bloch, o autor do livro

Falando um pouco sobre Robert Bloch, o autor norte-americano começou a escrever ainda adolescente, quando foi publicado em revistas de fantasia e de ficção científica, sendo um fã gigantesco do Lovecraft, foi premiado com um Hugo em 1959 pelo conto That Hell-Bound Train e com um Bram Stoker Award e um World Fantasy Award pelo conjunto de sua obra. Ele disse numa entrevista a Douglas E. Winter, biográfo e editor de antologias de terror, que, em meados de 1940, percebeu o quanto já havia extraído dos temas relacionados ao sobrenatural e que, devido aos avanços e à divulgação da psicologia e dos horrores da Segunda Guerra, ele reparou que “o horror real não está nas sombras, mas dentro do pequeno mundo retorcido dentro de nossos crânios“.

Meu filme Psicose veio todo do livro de Robert Bloch. – Alfred Hitchcock

A primeira coisa que quero ressaltar é a de que o filme é bem fiel ao livro, mas, se Hitchcock aproveitou ao máximo da linguagem do cinema, Bloch soube contar a história de uma maneira única e que ainda te assusta mesmo que você saiba o final. O ritmo é rápido e a construção dos personagens é exemplar, nenhum deles é inteiramente bom ou inteiramente ruim. Por exemplo, Marion Crane tem um conflito interno por ter roubado o dinheiro e fica se perguntando se o que fez valerá a pena ou se o melhor é dar meia volta e devolvê-lo.

Aliás, falando das personagens femininas, são elas que movem a obra, seja a Marion, a Lila ou a Mãe, e ainda que estejam presas a uma visão da década de 1950, Bloch consegue desenvolvê-las muitíssimo bem. Ponto para o autor.

É impossível comentar sobre esse livro sem comentar o seu ponto alto: Norman Bates. O autor soube como apresentá-lo e desenvolvê-lo no decorrer da obra muito bem, conhecemos suas intenções e suas emoções, e mesmo com seu lado esquizofrênico, o próprio Norman está ciente de sua situação. Bloch, também, não o torna um ignorante, pelo contrário reforça várias vezes a inteligência do personagem, assim como sua loucura, por meio da leitura de obras sobre o ocultismo e a psicanálise, temas que eram a base de movimentos culturais da época. Dessa forma, somos levados a nos questionar o quanto ele é uma vítima do meio em que viveu e do relacionamento abusivo com sua mãe e o quanto ele fez por que queria.

 

A edição da Darkside, como sempre, merece ser elogiada. Ela é linda, a nova tradução de Anabela Paiva conseguiu manter a fluidez e o impacto do texto original e a tradução deixou escapar pouquíssimos erros.

Psicose, de Robert Bloch, é um livro que encanta por sua escrita simples que faz o leitor engolir da primeira até a última página, enquanto se assusta pelos tortuosos e atemorizantes caminhos que a mente doentia de Norman Bates leva a trama.


 

 

Capa_PsicoseAutor: Robert Bloch
Tradutora: Anabela Paiva
Editora: Darkside Books
Ano: 2013
Número de páginas: 240
Sinopse: Psicose, o clássico de Robert Bloch, foi publicado originalmente em 1959, livremente inspirado no caso do assassino de Wisconsin, Ed Gein. O protagonista Norman Bates, assim como Gein, era um assassino solitário que vivia em uma localidade rural isolada, teve uma mãe dominadora, construiu um santuário para ela em um quarto e se vestia com roupas femininas.

Em Psicose, Bloch antecipou e prenunciou a explosão do fenômeno serial killer do final dos anos 1980 e começo dos 1990. O livro, junto com o filme de Hitchcock, tornou-se um ícone do horror, inspirando um número sem fim de imitações inferiores, assim como a criação de Bloch, o esquizofrênico violento e travestido Bates, tornou-se um arquétipo do horror incorporado a cultura pop.