Sempre que pensamos no contato humano com alienígenas, imaginamos guerras sangrentas e heroicas e invasões gigantescas, ou então o vemos como uma grande mão amiga que veio à Terra nos ajudar a atingir um período de paz e tranquilidade. Mas e se a reação dos alienígenas fosse simplesmente a indiferença? É este o mote de Piquenique na Estrada, romance soviético de Arkádi e Boris Strugátski que finalmente chega ao Brasil pela Aleph, com tradução de Tatiana Larkina.

Um piquenique. Imagine uma estrada no interior, uma clareira na mata, perto da estrada. O carro sai da estrada. o carro sai da estrada e vai até a clareira. Abrem-se as portas, e sai uma turma de jovens. Começam a tirar do porta-malas cestas com mantimentos, armam as tendas, acendem a fogueira. Churrasco, música, fotos… De manhã, eles vão embora. Animais, pássaros e insetos, que assistiram horrorizados àquele evento noturno, saem de seus esconderijos.

Harmont era uma cidade pacata antes da Visita. Era. Afinal, desde que a Terra recebeu a visita de alienígenas que logo saíram e nem parecem ter nos notados, nada mais é como era antes. Esses locais de visita se transformaram em zonas perigosas, repletas de estranhos objetos, restos deixados pelos nossos visitantes, que não entendemos nem para que servem, nem para que funcionam.

Redrick Schuhart, personagem central do livro, é um stalker. Seu trabalho é trazer estes objetos extraterrestres para fora das zonas, cujas fronteiras são vigiadas pelos militares e que escondem armadilhas mortíferas, como áreas de gravidade concentrada que podem te achatar sem te dar tempo sequer de gritar. Assim como os outros stalkers, Redrick se expõe a um pequeno mundo desconhecido e mortal para trazer peças que podem acabar com a humanidade antes de sequer pensarmos nisso.

Piquenique na Estrada é, afinal, um livro sobre a nossa pequeneza. Nós, humanos, somos como aqueles ratos na beira da estrada, fuçando o lixo deixado por uma raça e tentando tomar posse de itens que sequer sonhamos para que funcionam; como os autores dizem no próprio livro, estamos usando microscópios como martelos. Seja lá quem forem os visitantes, provavelmente nem fomos notados, por mais que tentemos constantemente nos colocar como mais do que aquilo que realmente somos.

Assim, esta não é uma trama que dá margem para a criação de heróis ou de vilões, é uma história direta e humana, que simplesmente mostra as pessoas tendo que lidar com uma das maiores revelações da História e com um universo que se tornou muito maior com apenas uma visita indesejada. Porém, se todos estes personagens são extremamente humanos, com suas virtudes e defeitos, são poucos com os quais você realmente vai se importar. Além disso, ainda cabe ressaltar a ausência de personagens femininos efetivamente desenvolvidos, algo que tinha reparado na leitura e estava pensando que era só um achismo meu, até que a Raquel, do Pipoca Musical, também comentou na sua resenha.

A escrita dos irmãos Strugátski é o que realmente fisga o leitor neste livro. Descrições de objetos e situações que são absurdas e que desafiam aquilo que entendemos como realidade dão justamente esta sensação, e os diálogos entre os personagens são simplesmente fantásticos e farão você refletir por um bom tempo, mesmo depois de você já ter fechado as páginas.

Para quem não conhece os autores deste livro, os irmãos Strugátski, Arkádi e Boris, são dois escritores russos de ficção científica que escreveram juntos a maior parte de seus romances e contos. Eles são uns dos principais autores do gênero no Leste Europeu, provavelmente os mais famosos, e ainda hoje são extremamente populares nos países que formavam a URSS. Inclusive a Aleph incluiu um posfácio escrito pelo Boris que mostra um pouco sobre o difícil processo de publicação do livro, que foi censurado pelas críticas que a obra traz nas entrelinhas e pelos seus romances e contos anteriores que também tinham críticas ao regime.

A edição da Aleph impressiona além do projeto gráfico, que está lindíssimo, mas também pela qualidade da tradução e da revisão, e da inclusão de dois textos de apoio. O primeiro é um prefácio escrito “apenas” por Ursula Le Guin, no qual a autora traz uma pequena resenha da obra e explica um pouco sobre os pequenos atos de rebeldia seus e dos Strugátski com Piquenique, enquanto que o segundo é aquele texto escrito pelo Boris Strugátski que comentei antes.

Para quem quiser ver a história sobre um outro foco, o livro foi adaptado para o cinema ainda em 1979 e se transformou no longa Stalker, dirigido por Andrei Tarkovsky e com roteiro dos Strugátski. Embora passe longe de ser uma adaptação fiel, o filme traz muitos dos temas abordados no romance.

No final, Piquenique na Estrada, de Arkádi e Boris Strugátski, se transformou em uma das minhas leituras favoritas do ano e numa recomendação certeira para qualquer um, fã ou não fã de ficção científica. Diálogos memoráveis e personagens interessantes se juntam numa trama curiosa e desconfortável, que te fará questionar a sua própria insignificância.

>> Disponível na Amazon.com.br

Autores: Arkádi e Boris Strugátski
Tradução: Tatiana Larkina
Editora: Aleph
Número de páginas: 320
Ano: 2017
Sinopse:  A cidade de Harmont está mudada. Desde que foi palco de uma das várias invasões alienígenas na Terra, o clima é de incerteza e medo. Os visitantes anônimos não se comunicaram com os terráqueos, e assim deixaram a humanidade com questionamentos aterradores. Nos locais onde eles estiveram, agora zonas proibidas, fenômenos perigosos continuam acontecendo. O trabalho ilegal de Redrick Schuhart, e de todos os outros stalkers, é invadir esse território para coletar e depois comercializar estranhos e misteriosos objetos trazidos de mundos distantes. Publicado pela primeira vez em 1971 na União Soviética, Piquenique na estrada mistura alusões à Guerra Fria e reflexões sobre a insignificância humana. Adaptado para os cinemas no filme Stalker, de Andrei Tarkóvski, é um dos maiores clássicos da ficção científica no leste europeu.