Orwell não é autor que se pode ignorar. Ainda mais em tempos como o nosso, onde o conservadorismo cresce dia após dia. Por isso, quando a Companhia das Letras anunciou que editaria uma nova coletânea de ensaios do autor, alguns inéditos em língua portuguesa, é óbvio que fiquei desesperado para colocar as minhas mãos em uma cópia do livro. E hoje, terminada a leitura, posso apenas dizer o quanto a leitura valeu a pena.

“De todas as perguntas não respondidas sobre a nossa época, talvez a mais importante seja: O que é fascismo?”

Embora seja mais lembrado como escritor de ficção, devido ao sucesso de 1984 e de A Revolução dos Bichos, o pseudônimo de Eric Blair também se consolidou como ensaísta e cronista, publicando em inúmeras revistas, simultaneamente, comentando os fatos de sua época, marcada pela ascensão do Nazismo, pela presença da URSS e pela Segunda Guerra Mundial.

Honesto e direto, Orwell não brinca e cutuca feridas que ainda hoje permanecem abertas, não se preocupando em colocar panos quentes sobre assuntos que precisavam – e precisam – ser debatidos pela sociedade.

Sensíveis, os textos selecionados por Sérgio Augusto abordam de política a cultura, enquanto traçam um retrato vívido daquele momento de incertezas. Como já é típico do autor, a política domina boa parte da obra, apresentando, inclusive, previsões que se concretizaram ou não sobre os rumos que o mundo tomaria e análises certeiras da natureza humana, que assustam pela atualidade e nos fazem questionar se não estaríamos tomando as mesmas decisões erradas outra vez. Dessa forma, os textos tratam, principalmente, sobre as questões relativas ao totalitarismo, às Revoluções, ao comunismo e ao nazifascismo.

Um dos mais geniais é aquele em que Orwell explora a dicotomia entre a realidade racista e opressiva dos países aliados, principalmente nas suas colônias (!) na África e na Ásia, e a realidade em que os mesmos países se colocavam como defensores do bem, da moral e da diversidade. Como aceitar que estes se proclamassem a “Frente da Paz” na Segunda Guerra Mundial, quando a realidade era outra?

Em outras palavras, como podemos “combater o fascismo” se fortalecemos uma injustiça muito mais ampla?

Outro destaque são as críticas de filmes e livros escritas pelo autor, que não só tratam das obras, como as posiciona em tempo e espaço. Sua análise do, hoje, clássico de Chaplin – O Grande Ditador – é, de certo modo, certeira, medindo a relevância do longa tanto para o ano em que foi lançado, quanto em perspectiva, apostando  na maneira como ele marcaria as futuras gerações.

Já sua resenha sobre Nós, de Zamyátin, é, no mínimo, curiosa. Publicada em janeiro de 1946, dois anos antes da publicação de 1984, o texto compara a obra russa com Admirável Mundo Novo, inclusive chegando a comentar que o livro de Huxley deve ter derivado do primeiro. Porém, apenas dois anos depois, Orwell lançaria 1984, distopia obviamente derivada de Nós, ainda que com um olhar menos mecanicista.

Até a hipocrisia de uma edição lançada na época de Mein Kampf, que tentava “baixar o tom da ferocidade do livro e apresentar Hitler a uma luz mais amena possível”, é alvo da língua ferina e certeira do autor, que nos relembra do perigo do surgimento de políticos que se autodenominam salvadores da pátria; afinal, a ironia de “se revelou de súbito que Hitler […] não era respeitável” não é pouca. E a proximidade com a nossa realidade também não.

Ainda nesse ensaio, Orwell explora o carisma e a bizarra atração que a figura de Hitler produziu, assim como a criação de uma narrativa (repetida à exaustão na história) para tornar mais palatável a sua estreita visão de mundo e torná-lo um herói: “Se estivesse matando um camundongo ele saberia fazer com que parecesse que estar matando um dragão”.

“Quando se comparam seus pronunciamentos de um ano atrás com os que foram feitos quinze anos antes, o que impressiona é a rigidez de sua mente, o modo como sua visão de mundo não evolui.”

E eu poderia ficar aqui linhas e mais linhas dissertando sobre cada um dos textos e sobre a genialidade de George Orwell em cristalizar dúvidas que a sociedade se fazia há mais de 70 anos, mas que ainda continuam a ser feitas. Este é o grande trunfo da coletânea publicada pela Companhia das Letras em um momento-chave da história mundial: ao invés de responder a pergunta do título, O Que É Fascismo? e Outros Ensaios não facilita e nos faz questionar ainda mais.


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Autor: George Orwell
Tradutor:  Paulo Geiger
Organizador:  Sérgio Augusto
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Número de páginas: 160
Sinopse: Romancista celebrado pelas distopias de 1984 e A revolução dos bichos, George Orwell também foi um prolífico repórter e colunista. Entre as décadas de 1930 e 1940, o autor de O que é fascismo? colaborou em diversos veículos da imprensa britânica. Nesta coletânea de 24 ensaios publicados em revistas e jornais, Orwell explora um amplo espectro de assuntos, sempre perpassados pela política, sua principal obsessão intelectual e literária. Com temas que variam de Adolf Hitler à pornografia, de W. B. Yeats a O grande ditador, os textos selecionados pelo jornalista Sérgio Augusto compõem um inteligente mosaico das opiniões de Orwell durante o período crítico da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria. Com sua visão irônica do mundo conflagrado da época, os ensaios demonstram a potência criativa do “socialismo democrático” adotado pelo escritor como credo político após sua experiência na Guerra Civil Espanhola, em contraposição aos totalitarismos de esquerda e de direita então em voga.