Ainda que esteja vivo, Michel Faber encerrou sua carreira como romancista em 2014, depois de fazer muito barulho no mercado editorial com livros como Pétala Escarlate, Flor Branca e Sob a Pele, avaliando que já narrara todas as histórias que tinha para contar e publicando aquele que disse ser seu último livro: O Livro das Coisas Estranhas.

Nessa sua última história, Faber nos coloca para acompanhar Peter Leigh, um ex-drogado que se converte ao cristianismo e torna-se pastor, e é selecionado pela USIC para uma missão no mínimo peculiar: pregar o Evangelho num distante planeta, chamado Oasis. Embora ache que a população de lá possa ser hostil, na realidade são esses habitantes que pedem por alguém para lhes ensinar e explicar sobre o livro das coisas estranhas, que é a maneira como apelidaram a Bíblia. Porém, se ele se anima em desbravar um novo mundo para espalhar a palavra em que crê, terá de deixar sua mulher, Beatrice, para trás, na Terra, com a qual se comunica esparsamente, enquanto que uma série de eventos parece prenunciar o Apocalipse cristão.

Elogiado por uma infinidade de autores, como o Philip Pullman, o ponto alto desse livro é muito claro para qualquer um que o ler. Viagens espaciais, tecnologias apenas sonhadas tornando-se realidade, descoberta de planetas e contato com alienígenas são alguns dos temas abordados aqui, mas que já foram vistos e revistos milhares de vezes dentro da ficção científica, e a sutileza do Faber está justamente em se apropriar das miudezas da história e torná-la uma coisa única de se ler.

Embora haja infinitas possibilidades nesse universo criado, o autor se debruça de uma maneira esplêndida e tocante sobre o relacionamento de Peter e Bea, testando o quão longe o amor pode ir e, afinal, o que seria o amor, a perda e a fé. Talvez essa mudança de foco seja um reflexo do momento que Faber passava na vida real enquanto escrevia o livro, com sua esposa enfrentando um câncer em estágio terminal que a matou, talvez não, mas certamente gera os momentos mais memoráveis do romance.

Porém, entre uma mensagem e outra, o livro peca no ritmo de uma maneira proposital, que ao mesmo tempo que, particularmente, achei genial, também torna-se um de seus maiores problemas. Se os diálogos se arrastam e vários personagens, na maioria das vezes, não te cativam e fazem você revirar os olhos quando aparecem, torna-se claro que a intenção de Michel Faber não era criar uma trama fluída, engenhosa e com personagens cativantes. Sua meta era criar uma história caótica, que mistura vários elementos, traz personagens irritantes com os quais você é obrigado a conviver pelo resto da leitura e uma sensação de impotência frente a um protagonista pouco questionador. O grande objetivo dele era criar uma história parecida com um vórtice que te arrasta lentamente para situações e direções inesperadas e que nem sempre você quer tomar, tal qual é a vida.

A edição da Rocco é, indiscutivelmente, uma das mais lindas que tenho na minha estante, brilhando dourada com um projeto gráfico bem construído. Não li o original, mas a tradução de Simone Campos não me incomodou ou gerou algum estranhamento e a revisão deixou passar pouquíssimos erros.

O Livro das Coisas Estranhas, de Michel Faber, é uma despedida interessante, ainda que complicada de ser analisada ou indicada para quem procura uma ficção científica mais usual. É muito mais um livro sobre a humanidade e suas minúcias do que um romance sobre um planeta distante; dessa forma, por mais que se afaste do comum ao gênero, nos lembra do que boas histórias são feitas, ainda que pareça cansativo vez ou outra.

A Editora Rocco cedeu esse livro, em sistema de parceria, para que ele fosse resenhado pelo site.


Autor: Michel Faber
Tradutora: Simone Campos
Editora: Rocco
Número de páginas: 528
Ano: 2016
Sinopse: Último romance do aclamado Michel Faber, autor de Sob a pele e Pétala escarlate, flor branca, entre outros, O livro das coisas estranhas teve calorosa recepção do público e da crítica, figurou na tradicional lista do The New York Times dos 100 livros notáveis do ano em 2014 e reafirma a posição de Faber como um dos mais inovadores e interessantes escritores contemporâneos.  A trama se desenrola num futuro próximo e acompanha o pastor Peter Leigh na missão de catequizar a civilização extraterreste do planeta Oasis. Afastado de sua mulher, seu gato, seu mundo, Peter vê sua fé ser testada até o limite, progressivamente se alienando de sua própria espécie, numa narrativa tocante que leva o leitor a refletir sobre temas como amor, separação e a natureza da fé religiosa.