​Quando eu era criança e estudava no período da manhã, uma das coisas que mais me alegravam quando a aula estava acabando era saber que eu iria pra casa e assistiria aos filmes da Sessão da Tarde, pelos quais, muitos deles, sou apaixonado até hoje. E um dos filmes que eu mais gostava de assistir era O Labirinto, filme da década de 80 dirigido por Jim Henson (o criador dos Muppets). Ao mesmo tempo em que eu via O Labirinto, eu atazanava minha irmã semicerrando os olhos toda vez que Sarah pronunciava as palavras para o Rei dos Duendes levar o irmãozinho dela embora, pois temos um longo histórico de implicâncias na infância. Quem tem irmã(o) mais novo sabe do que estou falando e vocês não podem me julgar, hahaha. Mas o melhor de tudo era me emocionar e conter as lágrimas secretamente através da lição que eu tirava sempre que assistia. Essa resenha é mais que uma resenha, é uma confissão e também uma homenagem. Caros leitores do Pela Toca, é hora de aventurarem seus corações no labirinto.

Sarah é uma jovem de 15 anos que mora com o pai, a madrasta e seu irmão mais novo, Toby. Inspirada na mãe que seguia a carreira de atriz, Sarah passa boa parte do seu tempo decorando frases de poesias e histórias das quais ela gosta. Em seu quarto, mantém tudo o que lembra a mãe – mesmo após essa tê-la abandonado – e organiza seus livros em ordem alfabética por sobrenome do autor. Sua relação com o pai e a madrasta é um tanto dificultosa e distante e seus sentimentos pelo irmão mais novo não são tão intensos, principalmente quando ela tem que cuidar dele pela noite para que os pais possam sair aos finais de semana.

Esse sentimento – ou a falta dele – que nutre pelo irmão, acarretará no maior desafio de sua vida. Um dos livros que ela está decorando as falas, é o próprio O Labirinto. Sarah sente dificuldade em decorar as frases do romance e não entende o motivo, mesmo passando horas e horas lendo e relendo, ainda assim troca as palavras ou esquece de alguma que é vital. Na noite em que tem que cuidar do irmão mais novo, o céu começa a despencar e uma forte chuva assusta o garoto que passa a fazer um escândalo com medo dos trovões que caem perto da casa. Para acalmar o irmão e, como a passagem do texto que estava decorando era conveniente para o momento, Sarah recita o livro para o garoto e profere as seguintes palavras:

“Eu realmente desejo que o Rei dos duendes venha e leve você embora… agora.”

O que está dito, está dito. E Sarah vê o seu quarto ser invadido por pequenas criaturas e o irmão levado por Jahret, o Rei dos Duendes – interpretado por David Bowie nos filmes – e logo se arrepende do que fez. A garota não tinha noção que suas palavras teriam poder para tal feito e ao pedir para que o irmão voltasse, Jahret propõe que Sarah atravesse o Labirinto, enfrente inúmeros desafios até que chegue a seu castelo e isso tudo em 13 horas. Essa é a única condição para reaver seu irmão e se ela falhar, Toby será transformado em um duende.

Dentro do Labirinto, Sarah traça sua jornada em busca da entrada do castelo. O que ela não esperava, é que pra conseguir seus objetivos ela iria poder contar com a amizade e a parceria de alguns personagens totalmente inusitados. Hoggle, um duende amargo que a mando de Jahret tenta atrapalhar a garota, mas que com o decorrer da história seu laço com Sarah se estreita cada vez mais; Ludo, um grande monstro com o coração proporcional ao seu tamanho; e Senhor Didímo, com sua índole inabalável, que nos mostra que a coragem se contrasta com a necessidade de uma dose de sensatez, dose essa que nos é lembrada por Ambrósio.

A jornada do herói presente no livro nos entrega aquilo que esperávamos de Sarah, a personagem se desenvolve, amadurece e assume uma nova postura. O Labirinto muitas vezes representa momentos da vida em que nos deparamos com alguma decisão que pode ou não acabar em algum bom lugar. Tudo que ela enfrenta pelo caminho, ela absorve como conhecimento e desconstrói alguns pré-conceitos. Encorajando o leitor a vivenciar junto a ela as experiências como um aprendizado; logo temos uma personagem feminina empoderada, forte e determinada a não abaixar sua cabeça pra imposição alguma.

“Ela percebeu que estava sorrindo e levou um instante para entender por quê. Então, compreendeu o motivo, como a um enigma que nunca mais a enganaria. Nada era justo. Se você esperasse justiça, sempre se decepcionaria.”

O filme foi dirigo por Jim Henson, produzido por Eric Rattray e ninguém mais, ninguém menos, que George Lucas foi o co-produtor. Ao voltarem de uma exibição de O Cristal Encantado, Jim e Brian Froud concordaram em trabalhar juntos em outro filme de fantasia e no mesmo instante Froud começou a desenhar esboços de goblins envolta de bebês, e assim nasceu a ideia conceitual de O Labirinto. David Bowie, que interpretou o antagonista Jahret, também compôs as faixas “Underground”, “Magic Dance”, “Chilly Down”, “As The World Falls Down” e “Within You” para a trilha sonora do filme, já a intérprete de Sarah foi Jennifer Conelly, sendo essa a estréia da atriz nos cinemas.

O livro que a Sarah lê no filme serviu de inspiração para a edição da novelização publicada pela Darkside Books. A edição é meiga, delicada e feita com muito carinho, o título e nome do autor na borda e na capa são feitos em hotstamping dourado e, ainda na capa, há flores estampadas e o material do livro é aveludado. A folha de guarda é feita dos esboços dos duendes para o filme. O livro traz artes conceituais criadas por Brian Froud e o diário de criação do Jim Henson, além disso, ainda acompanha uma fita de cetim vermelha e um marcador de páginas extremamente lindo.

A experiência tanto com o livro, quanto com o filme enche nossos corações de magia e esperança. É uma doce viagem até a nossa infância e relembra sentimentos que há muito se perderam durante nossas passagens pelo Labirinto. Uma leitura bela e recomendável para todas as idades, O Labirinto é uma das melhores apostas para colocar na sua meta de leitura. E para minha doce irmã, dedico essa resenha à você. Por mais que eu desejasse que os duendes te levassem durante a nossa infância, eu atravessaria mil vezes o labirinto por você.


Autores: ‍A. C. H. Smith e Jim Henson
Ilustrador: Brian Froud
Tradutora: Giovana Louise
Editora: Darkside Books
Ano: 2016
Páginas: 272
Sinopse: A jovem Sarah não aguenta mais servir de babá para seu meio irmão, o pequeno Toby, e como brincadeira deseja que o bebê chorão desapareça. O que deveria ser apenas uma provocação acaba se tornando real como um pesadelo. O Rei dos Duendes atende prontamente ao seu pedido, e leva o menino para um universo paralelo configurado como um gigantesco labirinto.