Existe alguma salvação para a raça humana?

Fazem pouquíssimos meses desde que o nosso camaleão, David Bowie, partiu da terra para virar uma estrela no céu. Todos nós sentimos com a perda que sofremos e celebramos com o retorno do nosso mestre das artes aos céus. Mas… e antes disso? Para um homem retornar aos céus, é necessário que primeiro ele caia na terra. E é justamente essa experiência da vida de David Bowie que vim trazer para os leitores que habitam a nossa nave-toca.

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Thomas Jerome Newton é um antheano que veio de seu planeta, Anthea, com uma missão bem única, e, ao chegar em nosso planeta, vai precisar se adaptar ao mundo humano da década de 80. Seus objetivos, a princípio, não ficam bem claros, sua única intenção apresentada ao leitor é a de conseguir ficar milionário o mais rápido possível. Thomas começa vendendo pequenos anéis de pedras preciosas que trouxe consigo em sua viagem até ter o suficiente para se alimentar e arrumar um lugar para morar. Munido somente de sua inteligência superior a da raça humana, ele coloca seus planos em prática por intermédio do advogado Farnsworth e sua empregada Betty Jo, para que assim possa se distanciar o máximo possível de outras pessoas e agir por de baixo dos panos.

Por ser narrado em terceira pessoa, somos introduzidos também à vida do Dr. Bryce, um professor formado em química que, após encontrar uma máquina de revelação fotográfica e estudar a sua composição, percebe que a tecnologia usada para produzir aquele equipamento é muito avançada para a época em que esse se encontra. Não seria possível dar um salto cientifico como esse sem antes anunciar ao mundo da ciência tal feito extraordinário. Intrigado com tamanha façanha, o velho professor de faculdade passa a se dedicar a desvendar o que há por trás do produto comercializado pela World Enterprises. Teria essa tecnologia sido originada aqui na Terra ou é algo tão absurdo que só poderia ter vindo de outro planeta?

É como se nós fôssemos… Como se fôssemos homens das cavernas, espantando moscas de nossas axilas e um de nós encontrasse um rolo de espoletas… e as jogasse no fogo. Pense na tradição, na tradição técnica que envolve montar uma tira de papel com pequenos montes de pólvora em uma fileira encadeada, para que possamos ouvir os pequenos pop, pop, pop! Ou, se desse um relógio de pulso a um romano na antiguidade e ele soubesse o que é um relógio de sol…

Enquanto isso, Jerome fica a cada dia mais próximo de conseguir a fortuna que tanto almeja e anuncia seu próximo passo: a construção de uma espaço-nave. Só que, para isso, é preciso ficar ainda mais rico e para acelerar esse processo, entrega mais projetos de tecnologia ao Farnsworth, com o intuito que que essas fossem realizadas e comercializadas o quanto antes. O mais estranho é que todos esses avanços realmente aconteceram nas décadas anteriores a nossa e foram aperfeiçoados de forma bem progressiva, algo quase como que de fora desse planeta.

Em meio a isso, Bryce acaba sendo contratado para trabalhar diretamente no processo de construção da espaço-nave. Com o projeto sendo totalmente financiado pela World Enterprises, o químico se deleita no material que tem em suas mãos e se entrega avidamente para dar vida ao que poderia ser até então apenas uma nave que iria para o espaço fazer uma coleta de todo material existente depois da exosfera. Só que essas intenções da corporação o deixam inteiramente intrigado, seria mesmo somente para fins de coleta? Não seria, no fim, usada para  incitar uma guerra mundial? Seus valores estão sendo colocados em jogo ao topar participar desse avanço histórico, mas seu amor pela ciência é bem maior.

Walter Tevis conseguiu reproduzir o processo de humanização do personagem sob uma perspectiva chocante, saímos do lugar comum ao percebermos o quão próximo de nós ele se torna e o quão triste isso é. É quase deprimente sentir-se humano. A crise existencial e o desespero do protagonista por não reconhecer sua própria identidade Antheana leva o leitor a pensar que estamos tão perdidos quanto ele está, por ter caído nas graças do pão e circo criado pela sociedade.

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Sua fé na humanidade é pouca, sua essência se esvai e a única companhia para a solidão é, se não a Betty Jo, o seu copo de gim. A narrativa meio poética nos atinge com uma onda de melancolia no romance de Tevis e é transportada para o cinema com maestria por Bowie, sua excentricidade se casa tão bem com o papel designado a ele que é surreal a sua atuação no filme, ainda mais por ser sua estreia no cinema.

O clímax chega no momento em que a seguinte reflexão é feita por Jerome: A terra merece mesmo ser salva? Vale a pena ficar anos fora de sua terra natal, juntar uma fortuna, criar uma espaço-nave, viver se passando por humano, copiando o comportamento e sotaque americano só para concertar toda a bagunça que havíamos feito durante quase dois milênios? Dessa forma, o livro me lembrou muito O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke (publicado pela Editora Aleph), cujo enredo também trata de alienígenas que vêm à Terra com o objetivo de ajudá-la a caminhar para uma era de ouro, só que as obras divergem em seus conteúdos e são únicas a sua maneira, fora o rumo que cada uma toma, ambas capazes de deixar o leitor boquiaberto.

O filme dirigido por Nicolas Roeg (também diretor de Cassino Royale e Dr. Jivago) é bem fiel a obra, contendo apenas algumas diferenças para enaltecer a humanização do personagem ao se perder na ambição e no alcoolismo. O filme foi reconhecido pela Academia de Filmes de Ficção Cientifica, Fantasia e Terror com o prêmio “Saturn Award” e elogiado pela crítica, até mesmo por fazer um trabalho classificado como digno de Stanley Kubrick.

David Bowie até produziu algumas músicas para o filme que não foram aproveitadas pelo diretor, sendo posteriormente lançadas no álbum Low que vocês podem ouvir abaixo, na playlist do Spotify. Starman, música de autoria do próprio Bowie, representa bem o sentimento passado pela obra ao decorrer da leitura. Afinal…

There’s a starman waiting in the sky. He’d like to come and meet us… but he thinks he’d blow our minds.

A edição da Darkside Books deixaria Walter Tevis emocionado. Provavelmente ele sentiria a mesma sensação de Bryce ao encontrar algo fora do seu tempo, afinal, os livros não eram editados assim em sua época. O livro tem uma diagramação ótima e a leitura flui muito bem, mérito total da tradutora Taissa Reis que tornou o texto atemporal e de fácil compreensão. Com bordas das páginas laranja neon que também compõe a arte da capa, a edição ainda possui uma fita de cetim preta para marcar a página, um marcador de página lindíssimo com uma foto do Bowie e uma folha de guarda bem psicodélica. Sendo Bowie um dos meus artistas favoritos, laranja minha cor favorita e a Darkside uma das minhas editoras favoritas… essa é certamente umas das minhas edições preferidas.

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Para quem quiser ver melhor a edição, a Raquel Moritz, do Pipoca Musical, fez esse folheando bem caprichado e incrível do livro que vocês podem conferir aqui.

A Duda Menezes, do Book Addict, também fez uma resenha bem legal em vídeo e vocês podem conferir no canal dela e aí embaixo.

Eu não sei dizer o que Walter Tevis diria da nossa época atual, mas se o Homem que Caiu na Terra fosse escrito no século XXI, gostaria muito de acreditar que o autor teria um pouco mais de fé na humanidade e daria um fim alternativo. Não que a natureza humana tenha mudado de forma relevante, mas sinto que se naquela época todos se distanciavam tanto de sua essência humana, a nossa geração é a que mais tem voltado a se aproximar dela.


walter-tevisEditora: Darkside Books
Autor: Walter Tevis
Tradutoras: Taissa Reis
Ano: 2016
Páginas: 224
Sinopse: O HOMEM QUE CAIU NA TERRA tornou-se um verdadeiro clássico da literatura e uma das mais refinadas, sutis e delicadas ficções científicas já escritas. Publicado originalmente em 1963, ganhou reconhecimento em todo o planeta com a adaptação para o cinema dirigida por Nicolas Roeg em 1976. O filme também marcou a estreia de David Bowie no cinema encarnando o protagonista alienígena – para quem o papel parecia ter sido especialmente pensado (o que não foi o caso): um ser andrógino, impúbere, alto para os padrões terráqueos, delicado, magro, polido e que tenta se adaptar à vida terrestre para sobreviver entre os humanos.