E se anos mais tarde você encontrasse um dos seus colegas de escola na primeira página do jornal, acusado de assassinatos em série, necrofilia e canibalismo? É isto que aconteceu com o quadrinista independente Derf Backderf, que, agora, conta a história de um dos criminosos que chocaram o mundo na década de 1990.

“Este é o grand finale de uma vida desperdiçada, e o resultado é uma depressão arrasadora. […] Uma vida doente, patética, desgraçada: isso e nada mais.” -Jeff Dahmer

Meu Amigo Dahmer parte da proposta de contar a história da juventude de Jeffrey Dahmer sob a ótica do cartunista que estudou com ele durante o Ensino Médio, tentando mostrar como alguém aparentemente normal se tornou uma pessoa capaz de cometer atos monstruosos. Mostrando um jovem que recolhe bichos atropelados e que não consegue entender sua própria sexualidade, somos apresentados logo de cara a um Dahmer que mora em uma casa problemática com pais instáveis. Quando ele finalmente se vê aceito dentro de um grupo, ainda que como objeto de chacota, Dahmer começa a fazer de tudo para “agradá-los”, incluindo simular ataques epilépticos por aí para arrancar algumas risadas. E é nesse contexto em que Derf se aproxima do futuro serial killer e vira aquilo mais próximo de um amigo que Jeffrey terá na vida.

Assim, acompanhamos a espiral em que Jeffrey entra conforme seus desejos mórbidos crescem, ao mesmo tempo em que é incapaz de aceitar sua sexualidade, e sua obsessão e seu vício em bebidas alcoólicas aumentam, fazendo com que ele comece a cruzar linhas das quais não dá para voltar.

Tudo o que é contado aqui é embasado não só na vivência de Derf e de seus amigos, mas também de uma ampla pesquisa realizada sobre a vida de Jeffrey para descobrir os problemas que ele enfrentava fora da escola. Entretanto, cabe ressaltar que pouco se vê da tal “amizade” que o autor diz ter no título com o serial killer, mas sim uma relação em que o grupo de amigos, Derf incluso, mais praticava bullying do que tinha uma preocupação sincera com Dahmer.

Com este teor biográfico, Meu Amigo Dahmer é, na verdade, uma história que não tenta buscar na adolescência do serial killer algum motivo para justificar seus atos, mas revira este seu passado para nos lembrar que por mais monstruoso que sejam seus atos, ele ainda era humano. Inclusive a história poderia ter um final diferente se alguém tivesse realmente prestado atenção e oferecido uma mão amiga para ajudar o adolescente a passar por cima de seus problemas.

Se a leitura do quadrinho pode ser até rápida, a edição da Darkside Books traz conteúdo o suficiente para te ajudar a mergulhar na história e no processo criativo de Derf Backderf para compôr o quadrinho. Esboços, cenas excluídas da versão final, notas do autor, listagem das fontes consultadas, perfil breve dos principais envolvidos e outros extras são incluídos para complementar a leitura e fazer um convite para quem quiser ler mais sobre Dahmer saber por onde começar.

Meu Amigo Dahmer, de Derf Backderf, ganha o leitor ao mostrar um outro lado pouco explorado da vida de um dos assassinos mais perturbadores da história e explorar a nossa curiosidade mórbida sobre os serial killers. É um lembrete poderoso que o maior demônio da humanidade é, simplesmente, o seu lado mais sombrio.

Exemplar cedido pela Darkside Books | Book’s not dead.

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Autor:
 Derf Backderf
Tradutor: Érico Assis
Editora: Darkside Books
Número de páginas: 288
Ano: 2017
Sinopse: Será possível identificar os traços de personalidade de um assassino antes mesmo que ele comece a matar? Imagine descobrir que um amigo seu de escola acabou se transformando num dos mais temidos serial killers do século? Essa é a história real que o quadrinista Derf Backderf relata na graphic novel Meu Amigo Dahmer. Meu Amigo Dahmer traz o perfil do psicopata Jeff Dahmer quando este ainda era um aluno do ensino médio. O autor do livro foi seu colega de turma nos anos 1970, e conviveu com o futuro “canibal de Milwaukee” com uma intimidade que Dahmer talvez só viesse a compartilhar novamente com suas vítimas. Juntos, Derf e Dahmer estudaram para provas, mataram aula, jogaram basquete. Os dois tomaram rumos diferentes, e Derf só voltaria a saber do amigo pelo noticiário, anos depois. Em 1991, os crimes de Jeffrey Dahmer vieram à tona: necrofilia, canibalismo e uma lista de pelo menos 17 mortos, entre homens adultos e garotos. O primeiro assassinato teria acontecido meses após a formatura no colégio. Além de remexer nos seus velhos cadernos e álbuns de fotografia, Derf consultou seus amigos de adolescência, antigos professores, os arquivos do fbi e a cobertura da mídia após a descoberta de seus crimes antes de roteirizar Meu Amigo Dahmer. Muitos tinham histórias do garoto que costumava fingir surtos epilépticos, que exagerava na bebida antes mesmo de ir para a aula e que parecia ter uma fixação em dissecar os animais atropelados que encontrava perto de casa. Mas quem realmente poderia prever os caminhos sombrios pelos quais ele seguiria? Seria possível evitar tamanha tragédia? Meu Amigo Dahmer, a história (em quadrinhos) antes da história, foi premiada no Festival de Angoulême, França, em 2014, e incluída pela revista Time como um dos cinco melhores livros de não ficção de 2012. A primeira HQ da coleção Crime Scene inaugura a publicação de histórias em quadrinhos, graphic novels e mangás pela DarkSide Graphic Novel.