20160522_214609É difícil que os anos passem e os gêneros literários se estagnem com a passagem do tempo, voltando a apenas lugares-comuns, afinal, os autores consagrados adquirem experiência e há sempre a entrada de novos escritores, e eles passam a refletir na sua literatura o período em que viveram. Em meados da década de 1950, após duas guerras de proporções mundiais e o constante avanço dos estudos psicológicos, figuras sobrenaturais deixam de assustar tanto e o terror se volta para aquilo que pode se esconder em todos nós, o nosso lado psicótico. É dessa sociedade, por exemplo, que surge a figura de Norman Bates, direto do livro de Bloch, um personagem que passa por tanta coisa no decorrer da vida que o leva a ter aquele fim.

Por outro lado, William March trilha o caminho oposto e, em 1954, publica Menina Má (no original, The Bad Seed, algo como A Semente Má), um livro que foi acompanhado por um grande entusiasmo da comunidade literária, que o considerou um suspense excepcional e arrancou elogios de autores consagrados, como Ernest Hemingway, premiado com o Nobel de Literatura.

Com uma história chocante, a trama do livro irá girar ao redor de Rhoda, a tal menina má do título, uma garota linda e manipuladora de 8 anos de idade, que não atrai quaisquer suspeitas. Até um piquenique promovido pela escola, onde um colega da sua sala é encontrado afogado no cais, e a indiferença da personagem chama a atenção de sua mãe, Christine, que começa a pesquisar o universo da psicopatia. No decorrer da história, a mãe não só se surpreenderá por aquilo que a filha esconde atrás de abraços e de “cesta de beijinhos”, como também descobrirá segredos sobre o seu passado.

Ao escrever esse livro, March se preocupou em centrar a história no olhar materno, que passa a adquirir uma outra visão de sua filha, a qual ela sabia que era incomum, mas não uma assassina mirim. E o choque da mãe em ver sua filha com esse novo olhar, vai aos poucos dando lugar a decadência de Christine, presa em conflitos morais e passando a enlouquecer aos poucos. Seu dever era proteger a filha do mundo ou será que como cidadã deveria proteger o restante do mundo de sua filha?

Mais tarde naquele verão, quando a sra. Penmark olhava para trás e se recordava, tomada por um desespero tão grande que sabia que nunca encontraria uma saída, sem ver solução para as circunstâncias que a atormentavam, lhe parecia que o 7 de junho, dia do piquenique da Escola Primária Fern, fora o dia em que sentiu felicidade pela última vez, pois, desde então, nunca mais soubera o que era alegria ou paz.

E com tudo o que é descoberto no decorrer da narrativa, uma grande pergunta acaba sendo feita: será que os psicopatas nascem com a semente má – bad seed -, que os leva a fazerem aquilo que fazem desde pequenos, ou o ambiente é que os torna capazes de assassinar em série?

O texto de William March é ágil e traz muito do período no qual foi escrito, o que pode tornar alguns diálogos até não tão realistas para determinados momentos da história, mas que condizem com o período no qual ela foi escrita. A maneira como essa é narrada e o desfecho é apresentado ao leitor, certamente, vão horrorizá-lo, dando-lhe a sensação de que se está preso em uma cadeira e não há nada a se fazer a não ser assistir o funesto destino para o qual a história se encaminha.

Para não vir aqui parabenizar a Darkside mais uma vez pela beleza da edição – mas, só para avisar, a edição está linda -, acho que o grande trunfo desse livro acaba sendo a tradução da Simone Campos, que não só traz a sensação de que se está lendo um romance do período no qual ele foi escrito, como também consegue inserir um ritmo mais moderno a narrativa. A decisão de trazer a introdução de Elaine Showalter, uma das grandes críticas literárias norte-americanas e fundadora da chamada crítica literária feminista, foi acertada e conseguem ajudar o leitor a ampliar a sua leitura do romance de March.

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Outro ponto positivo para a Darkside é a sua decisão de escavar a literatura de terror, suspense e mistério e trazer de volta às prateleiras brasileiras ou pela primeira vez, títulos extremamente importantes e relevantes na literatura do gênero, como foi o caso de Psicose e, agora, de Menina Má.

Menina Má, de William March, ainda é um romance que consegue surpreender e assustar o leitor mesmo cinquenta anos depois da sua publicação original. Ver Annabelle, Chucky e outras figuras aparentemente inocentes assassinando pessoas por aí ainda não é suficiente para preparar o leitor, que se vê frente a frente com uma psicopata infantil.


CapaAutor: William March
Tradutora: Simone Campos
Editora: Darkside Books
Ano: 2016
Número de páginas: 272
Sinopse: Quando nasce a maldade? Nascemos todos inocentes e somos corrompidos pelo mundo à nossa volta? Ou será a maldade uma espécie de semente que carregamos dentro de nós, capaz de brotar mesmo na mais adorável das crianças? Há 62 anos, um livro de suspense psicológico faria com que milhões de leitores discutissem apaixonadamente essa questão. Que livro era esse? Menina Má, mais um clássico que a DarkSide Books desenterra para os fãs do que há de melhor, e mais sombrio, na literatura mundial.

Publicado originalmente em 1954, Menina Má se transformou quase imediatamente em um estrondoso sucesso. Polêmico, violento, assustador eram alguns adjetivos comuns para descrever o último e mais conhecido romance de William March. Os críticos britânicos consideraram o livro “apavorantemente bom”. Ernest Hemingway se declarou um fã. Em menos de um ano, Menina Má ganharia uma montagem nos palcos da Broadway e, em 1956, uma adaptação ao cinema indicada a quatro prêmios Oscar, incluindo o de melhor atriz para a menina Patty McComarck, que interpretou Rhoda Penmark. Rhoda, a pequena malvada do título, é uma linda garotinha de 8 anos de idade. Mas quem vê a carinha de anjo, não suspeita do que ela é capaz. Seria ela a responsável pela morte de um coleguinha da escola?

A indiferença da menina faz com que sua mãe, Christine, comece a investigar sobre crimes e psicopatas. Aos poucos, Christine consegue desvendar segredos terríveis sobre sua filha, e sobre o seu próprio passado também. Menina Má é um romance que influenciou não só a literatura como o cinema e a cultura pop. A crueldade escondida na inocência da pequena Rhoda Penmark serviria de inspiração para personagens clássicos do terror, como Damien, Chucky, Annabelle, Samara, de O Chamado, e o serial killer Dexter. O romance de William March, que chega as livrarias em 2016, é ainda uma excelente dica de leitura para os fãs da coleção Crime Scene, da DarkSide Books, que investiga casos reais de psicopatas. A ficção nunca antes foi tão assustadoramente real como em Menina Má.