Vez ou outra me vejo desejando um livro por motivos que eu mesmo desconheço. Talvez tenha sido a capa, a sonoridade do título, algum comentário num vídeo que não me lembro ou tudo isso junto que me levaram a ler Léxico, romance de Max Barry publicado pela Intrínseca por aqui no ano passado e que já se tornou uma das minhas leituras favoritas de 2016.

Antes de mais nada, cabe aqui um aviso de que quanto menos você souber sobre a história, mais o livro irá te surpreender e melhor será sua experiência de leitura. Dessa forma, tudo o que você precisa saber é que Emily Ruff é uma garota que vivia nas ruas de São Francisco a base do que conseguia com seus truques de carta até ser chamada para treinar em uma instituição que lhe ensinará um conhecimento mortal, e que Wil Parke é um carpinteiro com amnésia, que se vê perseguido por dois agentes brutais que assassinaram a sua namorada. Ligando as duas histórias, temos uma organização que ensina jovens a controlar a mente e o comportamento das pessoas a partir de combinações específicas de palavras, forçando-os a deixarem suas identidades no passado e lhes dando nomes de poetas.

– É porque você não sabe o que são palavras.

– São sons.

– Não, não são. Você e eu não estamos grunhindo um para o outro. Estamos transferindo significado. Transformações neuroquímicas estão ocorrendo em seu cérebro neste exato momento por causa de minhas palavras.

A escrita de Max Barry é fluída e carregada de ação e de planos megalomaníacos, de certa forma, lembrando um pouco, nesse aspecto, filmes como Missão: Impossível ou livros como os do Dan Brown. Entretanto, o que realmente chama a atenção aqui é a maneira como ele consegue tornar palpável para o leitor o poder da palavra e a rede de intrigas e manipulações que monta – e desmonta – no decorrer do romance, lembrando que tudo está carregado de significados.

Isso só é possível graças a um bom desenvolvimento dos personagens, que possuem espaço para crescer no decorrer da trama e formar vínculos com quem lê o livro, fazendo com que tudo soe mais verdadeiros. Além do mais, é sensacional ler um romance onde boa parte dos personagens tem os mesmos nomes de autores famosos, ou seja, não estranhe encontrar um Eliot, Plath ou Brontë por aqui. Outro ponto positivo é a maneira como o autor desenvolve a história, intercalando presente e passado, dando um background maior aos personagens e permitindo que os detalhes da história sejam desvendados aos poucos e  de maneiras bem surpreendentes.

Acima de tudo, porém, confiar numa única fonte de informação significa que você não é capaz de avaliá-la criticamente. É o mesmo que estar trancado num quarto e todos os dias eu entrar e lhe contar o que está acontecendo do lado de fora. É muito fácil, para mim, fazer você acreditar no que eu quiser. Mesmo sem mentir, posso simplesmente lhe contar os fatos que me interessam e deixar os que não me interessam de fora. […] Você pode ser uma pessoa inteligente, mas, se deixar outra pessoa filtrar o mundo para você, não tem como analisar criticamente o que está ouvindo. […] Você delegou a habilidade de tomar uma decisão.

As decisões por trás da construção de um universo dentro da ficção científica podem ser complicadas, afinal, as possibilidades são quase infinitas e há muitas maneiras diferentes de se contar uma mesma história, e foi, justamente, essa construção de mundo que transformou Léxico em uma das minhas leituras favoritas desse ano. A maneira como Barry usa por base um mundo que é essencialmente o nosso, só acrescido dessa misteriosa organização e de seus poetas, que são brilhantemente idealizados e estruturados pelo autor.

O livro tem um bom ritmo e uma ótima trama que geram expectativas demais no leitor para o seu final, que, infelizmente, não são completamente correspondidas. A conclusão da história, ao menos, para mim, soou confusa e sem o brilhantismo que o autor demonstrou no resto do romance, mas isso não desqualifica o que é apresentado para o leitor até então.

Com uma edição competente por parte da Intrínseca, Léxico, de Max Barry, é aquele tipo de história que fascina e surpreende o leitor a cada virada de página, valendo-se da ficção científica na criação de um mundo tão  – ou até mais – real que o nosso, feito para nos lembrar que a palavra ainda é a nossa maior arma.


lexicoAutor: Max Barry
Tradutor: Fábio Fernandes
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 368
Ano: 2015
Sinopse: Uma organização treina jovens talentosos para controlar a mente e o comportamento das pessoas usando combinações específicas de palavras. Os iniciados deixam suas verdadeiras identidades para trás e passam a usar nomes de poetas. Identificada como um prodígio na arte da persuasão, Emily Ruff, que ganha a vida com truques de cartas nas ruas de São Francisco, é enviada para o treinamento em uma escola da organização e começa a aprender a técnica letal. Quando os líderes da instituição descobrem que ela está se envolvendo com outro aluno, Emily recebe uma missão aterrorizante. Wil Parke, carpinteiro, sofre de amnésia. Um dia ele já soube o significado da palavrárida, um artefato com o poder de colocar o planeta em risco. No entanto, não lembra mais. Wil é sequestrado por dois agentes brutais, que acabaram de matar sua namorada, desesperados para impedir que um membro da organização, de codinome Virginia Woolf, cause uma grande destruição. Em seu novo livro, Max Barry constrói uma trama sombria na qual as palavras são como armas e os tipos mais vis usam como pseudônimos grandes nomes da literatura.