Páginas de jornais, noticiários televisivos e links na internet nos levam, diariamente, ao questionamento sobre a violência na sociedade. Mas e se vivêssemos em uma realidade tão violenta que o caos fosse quase naturalizado pelos jovens e até esperado por parte do restante da população? É isso que acontece em Laranja Mecânica, a distopia do escritor, crítico, tradutor e compositor Anthony Burgess.

O cenário criado por Burgess, mesmo que com boas descrições, é complexo e exige bastante da criatividade do leitor – embora a adaptação para o cinema de Stanley Kubrick já tenha consagrado várias das cenas do livro. É incrível como o autor não se limita apenas a mudar a lógica de organização social como é comum nas distopias, mas também cria novos padrões de vestimenta, arquitetura, consumo de bebidas, comportamento e – pasmem! – linguagem. Exatamente, Burgess cria um conjunto de gírias chamado nadsat, usado durante toda a narração, ao qual o leitor tem que se adaptar e pouco a pouco decifrar (ou olhar o significado no glossário do final do livro, é uma opção pessoal). Esse vocabulário é uma mistura de russo, inglês popular e fala cigana. A edição da Aleph traz no Prefácio e na Nota sobre a Nova Tradução Brasileira informações que ajudam a entender o processo de criação das palavras e, também, as dificuldades e soluções encontradas para traduzi-las mantendo a semântica e a sonoridade o mais próximo do original possível. Inclusive, dar a oportunidade ao leitor de ter esse contato com o processo de tradução deveria ser uma preocupação mais frequente das editoras.

Mas a complexidade desenvolvida por Burgess está longe de se limitar ao cenário da trama; Alex, o narrador em questão, também é um personagem surpreendente. É incrível como mescla a rebeldia, a violência e o desejo de levar uma vida horrorshow, com uma fala educada e até rebuscada em certas ocasiões, além do tradicional gosto pela música clássica de seu ídolo Ludwig van Beethoven. Também é interessante observar seu pragmatismo como líder de sua gangue e o poder que exerce sobre os próprios pais.

A história segue com a prática indiscriminada da violência, sempre explorando o prazer de Alex e seus amigos em prejudicar os outros. Em certo ponto da trama, o autoritarismo de Alex faz com que ele perca poder dentro de sua gangue e seja sabotado em um dos típicos assaltos, acabando na prisão. A partir daí, Burgess inicia outra crítica social: a eficácia – ou seria ineficácia? – do sistema carcerário. Dentro do presídio, Alex finge estar se reabilitando e descobre a existência de um novo modelo de punição: o Método Ludovico. Nesse aspecto, Anthony nos propõe outra reflexão, que envolve debates sobre filosofia, psicologia, direitos humanos e livre arbítrio. Isso acontece porque esse método não se baseia na reeducação consciente, mas em bloquear as ações de Alex, mesmo que ele deseje ser violento, por meio de uma espécie de lavagem cerebral. E fica o questionamento: uma pessoa pacífica, que não optou por ser assim, ainda é uma pessoa pacífica? Além disso, o Método Ludovico não altera somente o lado violento de Alex, ele prejudica sua vida em outros aspectos, que chegam a ser cruéis.

E o autor para por aí? Claro que não! Todo o processo de reabilitação de Alex é movido por um jogo de interesses políticos, que nos leva a pensar: e nós, até que ponto estamos livres da luta partidária que habita as entrelinhas da sociedade? Sim, Laranja Mecânica é uma obra que, apesar de ter uma história que choca (e toltchoka!) o público, se destaca ainda mais pela quantidade de reflexões das mais variadas áreas do conhecimento que nos propõem. Além disso, não podemos deixar de enaltecer o perfeccionismo de Burgess na divisão da obra, que conta 21 divisões, e representa o processo de amadurecimento de Alex, até atingir o último capítulo, que seria uma maioridade matafórica.

Laranja Mecânica é, em síntese, um livro que mesmo contando com mais de 50 anos de publicação e com temática futurística, não comete nenhum anacronismo e continua extremamente atual. Sendo assim, só tenho a desejar boa leitura e boa sorte àqueles que se aventurarem a percorrer não essa linha, mas essa corda bamba do tempo, que nos desequilibra a cada página e nos faz perceber uma série de motivos para a instabilidade social.

EXTRAS

Apesar do sucesso da versão cinematográfica, Burgess não concordava muito com a visão de Kubrick sobre a obra, que, inclusive, excluiu o último capítulo do filme. Quem lê em inglês e gosta de polêmica vai ficar contente com esse post aqui.

Quem quiser se familiarizar com o Alex e criar um clima para a leitura pode colocar o queridíssimo Ludwig van na playlist.

Quem quiser se aprofundar na discussão sobre métodos punitivos presentes na obra pode começar por este artigo aqui.

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Autor: Anthony Burgess
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Aleph
Número de páginas: 199
Ano: 1962

Sinopse: Clássico eterno da ficção inglesa, Laranja Mecânica é um verdadeiro marco na história da cultura pop e da literatura distópica, fascinando e desconcertando leitores desde seu lançamento, em 1962. A história de Alex, membro de uma violenta gangue de adolescentes que sai às ruas buscando divertimento de uma maneira um tanto controversa, incita profundas reflexões sobre temas atemporais, como o conceito de liberdade, a violência – seja ela social, física ou psicológica – e os limites da relação entre o Estado e o indivíduo.