Até onde você iria para saciar os seus prazeres?

Quando eu era mais novo e estava sozinho, assistindo TV, enquanto todos os outros membros da família estavam dormindo, eu tinha o hábito de alternar entre os canais até achar algo interessante que prendesse minha atenção pela madrugada. Uma vez, felizmente ou infelizmente para aquela idade, me deparei com o filme de Hellraiser e, desde então, ainda sou agonizado ao rever todas aquelas cenas e adquiri certo receio para objetos pontiagudos. É essa a sensação que me persegue desde a infância que quero mostrar a vocês, caros leitores. 

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O desejo humano é algo extremamente poderoso e igualmente perigoso. Para conseguir o que queria, Frank Cotton manteve sua humanidade nessa linha tênue… Até encontrar a caixa de Lermachand. Frank tem o objetivo de vida viajar mundo afora em busca dos maiores prazeres que o ser humano poderia ter. Entre dormir com as mais belas mulheres e se aventurar por lugares afrodisíacos, sua ideologia hedonista o obriga a cada vez mais se esforçar para encontrar alguma coisa que mantenha sua sanidade, alivie seus prazeres e o faça sentir-se vivo.

Ao ouvir uma lenda sobre a Ordem de Gash e seus membros, os Cenobitas, Frank não consegue conter os seus mais intensos desejos e parte em busca da famosa Caixa de Lermachand, também conhecida como a Configuração da Lamentação. A principio, quando a encontra, a caixa parece ser totalmente enigmática e misteriosa, mas ao perambular os dedos pelo cubo, algo dentro de Frank parece sussurrar o que ele deve fazer para desvendar a caixa. É como se seu corpo estivesse conectado e compenetrado na tarefa de resolver tal enigma, algo muito maior que o próprio Frank e que agora o domina.

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Enquanto estava naquele processo, Frank havia se desconectado do resto do mundo até ouvir o som de um sino. Era um som que transcendia a sua realidade e que o colocava no limiar de um novo mundo. Isso o fez perceber que estava há horas decifrando a caixa naquela mesma posição e, ao olhar ao seu redor, conferiu, uma última vez, todos os preparativos que havia providenciado para o ritual – tábuas nuas do assoalho meticulosamente esfregadas e cobertas de pétalas, um altar em homenagem aos Cenobitas com oferendas como ossos, bombons e agulhas, um jarro com a sua própria urina e até mesmo um prato cheio com cabeças de pombas –, e, com a resolução do enigma da Caixa, veio uma leve onda de arrependimento seguida de um “tarde demais”. Os Cenobitas já estavam ali.

Por que, então, ele estava tão aflitos de observá-los? Seriam as cicatrizes que cobriam cada polegada dos corpos deles, a carne cosmeticamente perfurada, cortada e infibulada, sendo a seguir coberta de cinzas? Seria o odor de baunilha que eles traziam consigo, a doçura que mal conseguia disfarçar o fedor que havia por detrás? Ou seria que, conforme a luz aumentava e ele os examinava mais atentamente, não viu nada de alegria ou mesmo de humanidade em seus rostos mutilados, apenas desespero e um apetite que faziam suas entranhas se retorcerem?

Nosso protagonista nota que sua noção de prazer era totalmente diferente da das criaturas ao finalmente conhecer os cenobitas: seres assexuados com roupas de couro costuradas a peles desfiguradas e mutiladas por arames, agulhas, alfinetes, pinças, ganchos e correntes que se moviam ao menor movimento dos seres místicos. Tal cena inesperada não foi o suficiente para fazê-lo voltar atrás, pois, acima disso, Frank ainda desejava os prazeres desconhecidos que o mundo mortal não poderia proporcioná-lo. Mas é aí que dou-lhes um aviso… cuidado com o que deseja. Para Frank, decifrar a Configuração da Lamentação foi um erro terrível que resultou em uma experiência sadomasoquista que durará por toda a eternidade.

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Após tais acontecimentos, a história avança no tempo e somos apresentados aos novos personagens que dão continuidade ao enredo. Rory (irmão de Frank) e sua recém-esposa, Julia, se mudam para a casa antiga da família com a intenção de começarem uma vida nova, o que eles não contavam é que a casa para a qual estavam se mudando, era a mesma que Frank usou para fazer seus processos ritualísticos.

Toda a trama começa a se desenvolver a partir do fato de que Julia não está tão satisfeita com o casamento, fora isso, ela não se sente bem estando dentro da mesma casa que Frank chegou a morar. A real é que os dois tiveram um “affair” dias antes do casamento de Rory e Julia, e agora ela não consegue tirar o Frank da cabeça e estar naquela casa só atiça ainda mais esses sentimentos proibidos.

Com toda a mudança ocorrendo, Rory, acidentalmente, se corta e corre até Julia que está no quarto em que Frank havia feito o ritual. O motivo? Ela sente que algo habita ali, algo além do que seus olhos podem realmente ver. Só que ao fazer isso, Rory derruba seu sangue no chão e, por ser irmão do Frank, seu sangue acaba sendo sugado pelo chão e começa a dar forma ao corpo do Frank. É então que ele consegue fazer o primeiro contato com Julia, incentivando-a a ajudá-lo a reconstruir seu corpo para que ambos pudessem, enfim, permanecerem juntos.

A mudança de comportamento subsequente de Julia força Rory a recorrer a sua melhor amiga, Kirsty, para pedir conselhos sobre como lidar a estranheza da esposa. Só que Kirsty sente algo a mais por Rory do que só amizade, e a presença contínua dela na casa irá despertar a atenção de outra pessoa; sim, estamos falando do próprio Frank Cotton. Usando Julia como um ardil para se reerguer, o Frank agora tem apenas olhos para Kirsty e um só objetivo: transitar entre o mundo dos cenobitas e o nosso para disseminar os prazeres desconhecidos por nós.

Hellraiser teve sua primeira publicação, em 1986, na terceira edição de uma coletânea chamada Night Visions, organizada por ninguém mais que George R. R. Martin. A história possui 160 páginas e isso se deve ao fato de que Clive a escreveu também pensando nela como uma ideia de apresentar o roteiro do filme homônimo, do qual, anos mais tarde, ele mesmo foi o diretor.

Clive Barker escreve terror como ninguém, sua contribuição para a literatura do horror e para o cinema incentivou gerações a trilharem o caminho e o tornou uma forte influência na cultura pop. A narrativa segue um ritmo constante que me fez terminar o livro em um único dia. Esse foi o segundo livro na vida (até agora) que eu li em apenas um dia. Simplesmente não conseguia largá-lo até concluir a história, estava tão encantado pelo livro quanto Frank estava com a Caixa de Lermachand, ambos precisávamos desvendá-los. Clive brinca tanto com o nosso imaginário ao narrar certas passagens que faz o leitor sentir a agulha na pele e o cheiro de putrefação no ar. Dor e prazer caminham juntos nessa leitura que não só toca o nosso coração, porque está constantemente tocando nosso estômago e o nauseando.

Trinta anos de espera para a obra ser publicada no Brasil resultaram numa Deluxe Edition que é de deixar qualquer um suspirando. A capa é feita de um material que se assemelha a couro, com a Caixa de Lemarchand impressa em hotstamp, juntamente com correntes que acompanham a lombada do livro. A edição ainda vem com uma fita de cetim preta para marcar a página e uma diagramação que ficou maravilhosa, fazendo com que a leitura flua bem. A tradução do multitalentoso Alexandre Callari (que no próximo ano terá um livro publicado pela Darkside Books, saiba mais aqui) é de rasgar elogios, o trabalho delicado e dedicado para manter a tradução fiel ao original de Barker só reforça sua credibilidade como um dos nomes que despontam na literatura nacional. Além disso, há artes conceituais ao longo do livro e, para a alegria dos fãs, a Darkside colocou um esboço do Pinhead feito pelo próprio Barker.

7E como um incentivo a mais para se permitirem tal experiência, o próprio Stephen King já deu seu veredito sobre Barker: “Eu vi o futuro do terror, seu nome é Clive Barker”.

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A Desiree Baptista fez um ensaio fotográfico de Hellraiser que ficou incrível, afinal, ela é super talentosa e arrasa nos ensaios que faz, vocês podem conferi-lo no site dela (aqui). O pessoal do Boca do Inferno fez uma crítica bacana do filme e, se você quiser saber mais sobre toda a atmosfera sombria que o Barker levou aos cinemas, é só conferi-la aquiTambém tem esse vídeo do Pipoca e Nanquim com o Alexandre Callari, no qual eles comentam sobre Hellraiser e a experiência dele ao traduzir a obra.


barkerEditora: DarkSide Books
Ano: 2015
Autor: Clive Barker
Tradutor: Alexandre Callari
Páginas: 160
Sinopse: Escrito em 1986, HELLRAISER – RENASCIDO DO INFERNO apresentou ao público os demoníacos Cenobitas, personagens criados por Clive Barker que hoje figuram no seleto grupo de vilões ícones da cultura pop como Jason, Leatherface ou Darth Vader. Toda a perversidade desses torturadores eternos está presente em detalhes que estimulam a imaginação dos leitores e superam, de longe, o horror do cinema.

De leitura rápida e devastadora, HELLRAISER – RENASCIDO DO INFERNO conta a história de um homem obcecado por prazeres pouco convencionais que é tragado para o inferno. Inspirado nas afinidades peculiares do autor, o sadomasoquismo é um tema constante em sua arte.