O quão estranha pode ser a natureza humana?

Primeiramente, aviso que Fábrica de Vespas é uma obra polêmica, visceral e tão sensível que gerou muitas críticas controversas quando foi publicado originalmente em 1984, mas também foi considerado um dos 100 romances mais importantes do século XX. Também aviso que é o tipo de livro que cada leitor terá uma experiência diferente, essa é a minha. Se você tem coragem, curiosidade e estômago, então te convido a ler este livro. Sem mais delongas, é hora de abrir a fábrica.

Dois anos depois de matar Blyth, matei meu irmãozinho Paul, por motivos muito mais sérios e diferentes daqueles que eu tivera para acabar com o primeiro. Daí, um ano depois, foi a vez da minha priminha Esmeralda, por puro capricho. Esse é o placar até agora. Três. Não mato ninguém há anos, e não pretendo matar de novo. Foi só uma fase pela qual passei.

Frank Cauldhame é um garoto de 16 anos que vive com seu pai em uma ilha escocesa bem distante. Sua vida rotineira se resume em pequenos rituais diários, ainda que um tanto macabros: sair para beber com seu melhor amigo Jamie no pub local, evitar o banho por mais um dia, ajudar o seu pai que é manco e… matar. Sim, matar. Mas matar animais, não pessoas. Matar pessoas ele já fez há muito tempo e era só uma fase. Agora ele mata animais, que podem ser coelhos pra se vingar de uma experiência traumatizadora com coelhos no passado, ou até mesmo suas vespas que ele coloca no despertador só para que elas morram quando o despertador tocar, sendo que, é claro, Frank sempre acorda antes do desse soar o alarme, então ele simplesmente assiste a morte da vespa todas as manhãs.

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O pai de Frank, Agnus, é tão excêntrico quanto ele, o pai tem o TOC de decorar a medida de cada cômodo, móvel e objeto dentro de casa e ensina o garoto a calcular e gravar as medidas. Por ter passado por uma fase bem hippie, Agnus optou por não registrar socialmente o Frank, ou seja, ele não tem uma identidade e, para o Estado, ele é inexistente. Mas por ter contatos e por ter se formado em biomedicina, ele consegue dar as vacinas necessárias e mantém Frank forte e saudável até os dias de hoje. Preferindo educar seu filho a sua maneira, concede as informações que ele acha mais conveniente o garoto saber, o que não impede o menino de ir à biblioteca e procurar a veracidade do que aprendeu.

Eric, irmão de Frank, foi internado em uma hospital psiquiátrico por ter sido diagnosticado como louco. E agora que escapou, está retornando para casa e, Frank e seu pai terão que lidar com a sua chegada iminente que se aproxima mais a cada instante. Essa é a trama da família Cauldhame.

A narrativa é feita pela ótica do próprio Frank, em primeira pessoa, então acompanhamos cada passo e pensamento do protagonista no decorrer da história. Vivemos solitariamente em sua mente sincera e fria, enquanto o personagem vaga por sua ilha que, para ele, é seu território, espaço e templo.  No entorno de sua residência, o terreno é vasto e Frank usa desse beneficio para poder criar sua fortaleza pessoal, delimitada com cabeças de animais fincadas em estacas, e a quem ousa se chocar com isso, saiba que foi bem eficiente para expulsar os garotos mais velhos que iam até lá para implicar com ele, então, não adianta ficar indignado e, se os pássaros pegarem alguma cabeça dos animais, é só ele matar outro e repor. Essa prática funciona como uma forma de controle para o personagem que também faz uso de sua fábrica de vespas para decidir os fatos corriqueiros e suas futuras ações. Esse controle sobre as coisas dá uma sensação de poder ao garoto, e agora, mais do que nunca, Frank precisa visitar a fábrica para se decidir sobre o que fará com seu irmão. Eric está chegando.

Partes de mim acham tudo isso um absurdo, mas são uma minoria ínfima. O restante de mim sabe que esse tipo de coisa funciona. Que me dá poder, faz de mim parte do que possuo e de onde estou. Faz eu me sentir bem.

A mente de Frank é uma das mentes mais intrigantes que já tive o desprazer de conhecer, ela realmente nos faz questionar sobre a natureza humana e o quão longe nós podemos chegar. Veja bem, por mais que ele seja um psicopata, ele se vê totalmente consciente de suas atitudes. Não é como ele tivesse remorso, até tem um pouco, mas é uma parte ínfima dele e essa parte é logo silenciada pelo prazer que ele sente ao cometer suas atrocidades. Ele mascara esse lado frio muito bem, sabe como enganar as pessoas fazendo jogos psicológicos, abusou de sua inocência quando mais novo e cresceu com essas artimanhas na manga. Por ter matado dois garotos, ele precisava matar uma menina. É como se ele tivesse batido o cotovelo e agora precisasse bater o outro para igualar e acabar com a sensação de incômodo, além de que, para ele, as mulheres não são tão necessárias e são seres inferiores ao homem. Essa forma de pensar e agir é totalmente natural ao personagem, que alega ao menos ser sincero sobre fazer o que faz por prazer. Todos os detalhes dos processos de morte são narrados nos mínimos detalhes e de forma bem visceral, tanto que tal naturalidade do garoto pode ser bem difícil de digerir para quem se aventurar a ler.

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Por ficarmos na visão do personagem, somos limitados ao conhecimento de algumas informações que somente são nos apresentadas ao longo da história. Então cada detalhe é dado para desenvolver o enredo e esclarecer o motivo de ele só ter matado três pessoas e parado por aí, de Eric estar internado, do pai ter ficado manco e, principalmente, a resolução do clímax do pai, que mantém um cômodo da casa sempre trancado para esconder algo lá, algo que Frank sempre quis saber e  o faz tentar abrir a porta do quarto diariamente  na esperança de que o pai a tivesse deixado aberta.

Pelo menos eu admito que fiz tudo para reforçar meu ego, recuperar meu orgulho e me dar prazer, não para salvar a nação, garantir justiça ou honrar os mortos.

No prefácio do livro, o autor nos conta como foi sua experiência ao escrever o livro e suas várias tentativas de tentar publicar ficção cientifica que foram constantemente negadas por editoras. Após várias frustrações, o autor decidiu escrever uma obra que tivesse elementos de ficção cientifica, mas que não necessariamente se  tornasse uma. No caso, Frank poderia ser comparado a um alienígena. A ilha em que mora pode se remeter a um planeta também longínquo. A personalidade de Frank também tem elementos em comum com o Iain que, quando criança, tinha o costume de construir diques, montar armas e brincar com pipas.

Também queria ressaltar que a inocência infantil não é – e nem era – como a maioria das pessoas parece pensar; crianças provavelmente nutrem quase tantos pensamentos violentos quanto os adultos. Elas apenas não costumam ter um quadro moral sofisticado no qual colocá-los. Não que, pensando bem, todos os adultos o possuam.

Fábrica de Vespas foi uma experiência única e que me chocou de todas as formas possíveis. Não que eu tenha lido livros suficientes para ter propriedade ao declarar isso, mas duvido que qualquer livro me incomode, assuste e me deixe repugnado como Iain Banks conseguiu fazer em seu romance de estréia. Na verdade, Iain me calejou pra esse tipo de literatura. Sua intenção era representar a nós, humanos, como seres enganados, iludidos, saudosos de algo que nunca existiu, vingativos sem nenhum bom motivo e tentando com muito esforço viver por algum ideal exagerado que, na verdade, não tem qualquer relevância real. Um feito como esse é digno das críticas que recebeu e digo isso tanto para as positivas quanto para as negativas, afinal, essa obra que lembra Precisamos falar sobre Kevin e Senhor das Moscas, é de um cunho macabro sem igual.

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A edição da Darkside é EXTREMAMENTE ÉPICA. A capa é bem assombrosa, há uma mescla de um humano com uma vespa que é de deixar as pessoas bem curiosas quando se lê em transportes públicos, no canto superior direito tem uma vespa em baixo relevo que também está presente, impressa, em cada início de capítulo do livro, uma fita de cetim amarela acompanha a edição para marcar a página, a folha de guarda é lindamente psicodélica e atrás do livro vem uma sinopse curta com uma comentário que o livro recebeu da Cosmopolitan.

A Raquel, do Pipoca Musical, fez esse vídeo maravilhoso falando sobre a experiência dela ao ler Fábrica de Vespas e vocês podem assistir aqui. A Dri, do Redatora de M*%$#, fez um super especial de alguns livros com crianças cruéis que ficou muuuuuito legal e você pode assisti-lo aqui.


fabrica4Autor: Iain Banks
Tradutor: Leandro Durazzo
Editora: Darkside Books
Ano: 2016
Páginas: 240
Sinopse: Narrado em primeira pessoa, sob o ponto de vista de Frank, a estreia literária do autor escocês Iain Banks polarizou a crítica e os leitores quando foi publicada pela primeira vez, em 1984. Sua obra foi tão aclamada quanto criticada, devido à sua macabra descrição da violência. Livro que evoca tanto O Senhor das Moscas (1954) como o Precisamos Falar sobre Kevin (2003), FÁBRICA DE VESPAS consegue produzir um olhar ao mesmo tempo bizarro, imaginativo, perturbador e repleto de humor negro do que se passa dentro da mente de uma criança psicopata.