Tenho uma história para te contar, mas antes você tem que olhar o calendário. Se for segunda, coloque Louis Armstrong para tocar; se for uma quarta-feira, Sinatra; uma sexta-feira, é dia de Glenn Miller. É um domingo? Logo, é para você perder-se na melodia de Mozart. Se for uma terça, quinta ou até um sábado, deixe o rádio desligado, é o dia para se ouvir o silêncio; agora, se escutar as pequenas gotas de chuva batendo nas janelas e nos telhados, pare o que estiver fazendo e coloque Billie Holiday. É sempre Billie Holiday nos dias de chuva.

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A história que tenho para contar é singela e fala sobre perda, solidão e amizade, é sobre olhar para as estrelas e se espelhar na sua imensidão, é sobre buscar a Ursa Maior e deixar o Pi encontrar uma escapatória rumo ao infinito. É sobre Jack, um garoto que vive no Maine no período do pós-guerra, que acabou de perder a mãe e é colocado pelo pai – veterano que volta para a casa após a derrocada do Eixo – em um internato. Lá, faz amizade com Early Auden, um garoto diferente dos demais, mais baixo que as crianças da sua idade, dono de uma personalidade incrível, puro e cheio de peculiaridades, como o seu estranho hábito de escolher as músicas que vai ouvir de acordo com o dia da semana ou de separar os chicletes por cor quando está nervoso. Não só isso, mas o garoto é fascinado pelo número PI e crente de que a sua infinidade de números conta uma história repleta de aventuras na qual o Pi está perdido e precisa de alguém para buscá-lo. Assim, em um dos feriados, Jack e Early acabam saindo em uma jornada para resgatar Pi e, acima de tudo, a si mesmos.

Não queria ficar sozinho com a tristeza, a chuva e os fantasmas do passado. Sabia que seguiria Early onde quer que ele fosse. Ele pode se perder e me levar junto, mas é melhor do que ficar perdido e sozinho. Era o que eu pensava, pelo menos.

Em Algum Lugar nas Estrelas, de Clare Vanderpool, é aquele tipo de livro simples, mas que te força a mergulhar entre as suas páginas, a te fazer sentir e ponderar o peso de cada uma de suas palavras. É um romance que brinca com o que é real e o que é imaginação, fazendo o leitor se perguntar até que ponto aquilo é uma coincidência e o momento em que tudo torna-se mais mágico.

Vanderpool tece uma trama em que cada detalhe importa, em que tudo está conectado de maneira leve e graciosa, numa narrativa que flui, mas sem deixar de lado a delicadeza e a beleza. Ver essa história em primeira pessoa pelos olhos de Jack torna tudo mais próximo, ainda que coberto pelo véu da perda e dor de se sentir sozinho em um lugar tão longe de casa.

Entretanto, por mais que Jack seja o narrador dessa história e brilhantemente construído pela autora, quem dá vida e torna esse livro inesquecível é Early. Basta algumas poucas páginas para se apaixonar por ele e querer abraçá-lo do começo ao fim, logo, fica claro o porquê do título original do livro ser Navigating Early; Early tem aquele brilho infantil no olhar, vê o mundo de maneira vívida e inocente e vive as emoções de maneira intensa, contrapondo e completando perfeitamente a descrença e a amargura que vez ou outra transparecem na personalidade de Jackie.

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A edição da Darkside está um show a parte, incluindo uma tradução que traz toda a força do texto original, feita pela Débora Isidoro, e uma boa revisão que comete poucos deslizes. O projeto gráfico está fantástico e traz toda a imensidão das estrelas e das constelações para o papel de uma maneira muito bonita que você pode conferir nas fotos que estão espalhadas por esse post ou no final do vídeo feito pelo Pedro Bim, do canal Não Apenas Histórias.

Em Algum Lugar nas Estrelas, de Clare Vanderpool, é um romance tocante que parece escapar um pouco do padrão e traz, nesse processo, uma narrativa única, habitada por personagens apaixonantes e que ficarão com o leitor mesmo quando ele fechar o livro. Para aqueles que não querem desapegar dessa história tão cedo, recomendo que naveguem pelas estrelas com a Raquel do Pipoca Musical, ouçam a playlist do Spotify feita pela editora (disponível no final dessa resenha) ou se arrisquem no DIY bem fácil – olha que sou um desastre com essas coisas – criado pela Nilsen, do blog Mudando de Assunto (confira aqui), relacionado ao livro.


vanderpoolAutora: Clare Vanderpool
Tradutora: Débora Isidoro
Editora: Darkside Books
Número de páginas: 288
Ano: 2016
Sinopse: Em Algum Lugar nas Estrelas, da autora norte-americana Clare Vanderpool, é um romance intenso sobre a difícil arte de crescer em um mundo que nem sempre parece satisfeito com a nossa presença. Pelo menos é desse jeito que as coisas têm acontecido para Jack Baker. A Segunda Guerra Mundial estava no fim, mas ele não tinha motivos para comemorar. Sua mãe morreu e seu pai… bem, seu pai nunca demonstrou se preocupar muito com o filho. Jack é então levado para um internato no Maine (o mesmo estado onde vivem Stephen King e boa parte de seus personagens). O colégio militar, o oceano que ele nunca tinha visto, a indiferença dos outros alunos: tudo aquilo faz Jack se sentir pequeno. Até ele conhecer o enigmático Early Auden. Early, um nome que poderia ser traduzido como precoce, é uma descrição muito adequada para um prodígio como ele, que decifra casas decimais do número Pi como se lesse uma odisseia. Mas, por trás de sua genialidade, há uma enorme dificuldade de se relacionar com o mundo e de lidar com seus sentimentos e com as pessoas ao seu redor. Quando chegam as festas de fim de ano, a escola fica vazia. Todos os alunos voltam para casa, para celebrar com suas famílias. Todos, menos Jack e Early. Os dois aproveitam a solidão involuntária e partem em uma jornada ao encontro do lendário Urso Apalache. Nessa grande aventura, vão encontrar piratas, seres fantásticos e até, quem sabe, uma maneira de trazer os mortos de volta – ainda que talvez do que Jack mais precise seja aprender a deixá-los em paz.