É complicado vir aqui escrever sobre Diário de uma Escrava, quase tão – ou até mais – complicado do que foi ler esse livro. E essa leitura não foi complicada porque o livro é ruim ou foi escrito de uma maneira que não flui, na realidade, o motivo é justamente o oposto disso: Rô Mierling sabe escrever tão bem que brinca com o leitor a cada parágrafo e o prende em uma posição no qual ele apenas pode assistir um horrível espetáculo que o fará desacreditar da humanidade.

Diário de uma Escrava vai ser aquilo que o próprio nome indica, reunindo trechos de um diário de uma jovem que é mantida como escrava sexual desde os seus 15 anos, quando foi sequestrada por um homem – apelidado pela garota de Ogro – que se aproximou pouco a pouco dela e mantém uma identidade perante a sociedade que faz com que ninguém suspeite dele. Laura não foi a primeira e, ao que tudo indica, não será a última jovem mantida por esse monstro para satisfazer seus torpes e horrendos desejos sexuais.

Mierling escreve de maneira nua e crua, não ocultando ou amenizando nada para o leitor. Tudo é narrado tal qual aconteceu com inúmeras mulheres na vida real, todo esse horror é transposto para o papel sem qualquer filtro. Justamente por conta disso que essa obra se torna uma leitura fundamental a todos, servindo de alerta a nossa sociedade ao mostrar o horror que acontece a vista de todos, ainda que pareça invisível ou apenas puro exagero​ ficcional.

Aliás, aqui cabe uma ressalva pessoal. Vi muita gente comentando que acharam que o livro força situações para chocar o leitor. Infelizmente isso está longe de ser o caso. Inúmeras histórias documentadas de mulheres sequestradas e mantidas como escravas sexuais, como é o caso, mostram que a autora não interfere ou exarceba nenhum aspecto da trama; até mesmo a bibliografia apresentada por Mierling ao final do livro deixa isso claro. Por mais que seja inimaginável pensar nos horrores que uma pessoa pode fazer a outra, o que é narrado aqui é tão real quanto possível em uma obra de ficção.

“Estas são minhas lembranças da época, ou parte do que quero e consigo me lembrar. Fui prisioneira daquele homem. Foram tempos horríveis que me marcaram muito e as cicatrizes permanecem abertas. A memória falha, os fatos se misturam, mas vou tentar narrar para vocês. Habita em mim uma única certeza – nunca mais serei a mesmo. Pode ser que ele tenha me roubado tudo, até a mente. Pode ser que muito do que aqui está seja invenção. Não importa, porque, no buraco, o medo, a escuridão e o sofrimento eram reais.”

Devido a forma como a autora narra a história, a personagem principal é construída e desenvolvida primorosamente frente ao leitor, o que fica ainda mais claro na metade final do livro. Vemos a personagem seguir por caminhos com os quais não concordamos e tomando escolhas que condenamos, mas a cada passo e decisão que ela toma, conseguimos compreender o porquê ela trilha esse caminho.

Porém, justamente por ser narrado quase que em sua totalidade da perspectiva de Laura, os demais personagens podem parecer um pouco bidimensionais demais à primeira vista, por mais que a intenção da autora nunca tenha sido a de focar neles. Justamente por isso, não é algo que tira o peso e a importância da obra.

Nem preciso lembrar que a edição da Darkside Books está linda e repleta de conteúdo. O projeto gráfico brinca com uma metáfora do início do livro e a questão sobre a diferença entre as aparências e a realidade que permeia toda a narrativa. A adição de uma bibliografia e de notas finais enriquece a leitura e ajudam o leitor a se inteirar mais sobre o tema.

Diário de uma Escrava, de Rô Mierling, é uma leitura pesada, forte e importantíssima de ser feita, indicada a todos pela necessidade do tema ser debatido, ainda que seja um livro complicado emocionalmente de se ler. No final, a pesquisa extensa da autora e a qualidade da narrativa tornam esse um livro de ficção não-ficcional, com uma história real e que continuará com você muito tempo depois que terminar a última página.

Livro cedido pela Darkside Books para resenha.
Book’s not dead. <3


 

Autora: Rô Mierling
Editora: Darkside Books
Número de páginas: 224
Ano: 2016
Sinopse: No Brasil, todo ano, 250 mil pessoas desaparecem sem deixar vestígios. Desse total, 40 mil são menores de idade, dos quais um terço são meninas destinadas a fins sexuais. Muitas escapam ou são encontradas, contando histórias terríveis; outras nunca mais são vistas com vida. Laura foi raptada e jogada no fundo de um buraco por um completo desconhecido. Ela vê sua vida mudar, e passa a descrever com detalhes íntimos cada dia, cada ato, cada dor que o sequestro e o aprisionamento lhe fazem passar. Estevão é um homem casado e trabalhador, mas que guarda em seu íntimo uma personalidade psicopata. Ele percorre ruas e cidades se apossando da vida de meninas ainda muito jovens. Mergulhando fundo nessa fantasia, ele destrói vidas, famílias e sonhos, deixando atrás de si um rastro de dor e morte. Narrado em forma de diário, o livro acompanha os momentos mais cruciais da vida de Laura, período em que algo dentro dela também se modifica de uma forma inimaginável em busca da sobrevivência. Publicado originalmente na plataforma digital Wattpad, onde já teve mais de um milhão e meio de leituras, Diário de uma Escrava apresenta um retrato duro, cruel, abominável, mas infelizmente mais comum do que se imagina, no Brasil e em todo o mundo. A obra de Rô Mierling é, acima de tudo, um alerta para todas as mulheres. Através dele, a autora denuncia os diversos tipos de violência que muitas mulheres são obrigadas a suportar em silêncio e nas sombras da sociedade.