Primeiro, palmas para a Darkside Books por desenterrar mais um clássico do suspense e do terror. Pronto, sigamos em frente com a resenha.

Era sexta-feira 13, e a tempestade de neve de ontem permanecia nas ruas como um resto de maldição…

A história de Harry Angel, um detetive esperto, contratado por um misterioso homem para encontrar um músico que desapareceu sem deixar qualquer vestígio não demorou muito para se tornar um clássico, e não é para menos. Coração Satânico (Falling Angel no original), William Hjortsberg, une o melhor do suspense a um terror que gela a sua espinha vez ou outra e ainda traz uns toques de noir para torná-lo um livro obrigatório de se ter na estante.

Na rápida escalada de terror, na qual Harry vê cada possível oportunidade de descobrir mais sobre o desaparecimento ser frustada com um novo crime brutalmente violento, que tornam a leitura cada vez mais densa. Todo o sobrenatural que é posto aqui não tira nem um pouco da veracidade que Hjortsberg põe em sua Nova Iorque, pelo contrário torna mais vivo e real o complexo caldeirão de crenças que era a cidade na metade do século XX.

Os personagens são guiados com perfeição pelo autor para ocuparem seu lugar na trama, além de ganharem complexidade e profundidade, tirando-os do perigo de uma construção maniqueísta que poderia afundar o livro e simplificá-lo. Cada um tem sua própria história, seus próprios segredos, mistérios e intenções e a maneira como eles se entrelaçam tornam as relações expostas em Coração Satânico simplesmente humanas, são relações que surgem a partir da balança entre o que se ganha e o que se perde.

Cada pequeno detalhe sobrenatural apenas contribui para a atmosfera noir e de suspense do livro, que o tornam não apenas um ótimo romance de terror, como um romance policial delicioso de se ler e de se acompanhar. Entre voodos e galinhas, é o clássico mistério de quem fez o quê que conduz a trama. Tudo aqui é aterrorizante e surpreendente, com o clima noir entrando por cada brecha deixada pelo autor para povoar a narrativa de muita névoa e deixar tudo mais dúbio.

Para aqueles que já viram o genial filme de Alan Parker protagonizado por De Niro e acham que não encontrarão nada de novo aqui ou que verão uma versão melhorada do longa, digo para esperar nem uma coisa, nem outra. Tanto Parker quanto Hjortsberg foram geniais em suas abordagens e colocaram sua personalidade como artistas na visão de cada um da obra, o que faz que tenhamos duas histórias muito parecidas que são intrinsecamente diferentes.

Ponto positivo para a Darkside Books, que não só trouxe um bom livro que estava há um bom tempo fora de catálogo numa edição extremamente bem cuidada, como se preocupou em trazer alguns materiais extras para aprofundar a experiência de leitura, que inclui introdução de James Crumley, posfácio do autor e uma carta de Stephen King comentando a obra.

Coração Satânico, de William Hjortsberg, é um livro que te emaranha numa trama cheia de suspense e terror, no qual cada porta aberta pode ser a última e uma Nova Iorque que brilha – ainda que em tons de cinza – em sua diversidade e mistério.


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Autor:
William Hjortsberg
Tradutora: Carla Madeira
Editora: Darkside Books
Número de páginas: 
320
Ano:
2017
Sinopse:
 Coração Satânico se passa em Nova York, em 1959. Harry Angel é um detetive particular contratado para encontrar Johnny Favorite, um músico famoso que desaparecera após a Segunda Guerra Mundial. Psicologicamente transtornado com os campos de batalha, Johnny retornaria aos Estados Unidos em estado catatônico. Dias depois, ele some do hospital de veteranos, sem deixar rastros. O caso leva Harry Angel a se envolver com seguidores de magia negra, assassinos e um cliente que não ousa perdoar velhas dívidas. A história seria consagrada mais uma vez em 1987, quando Coração Satânico ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Alan Parker, com Mickey Rourke e Robert De Niro nos papéis principais. O sucesso do filme em todo o mundo apresentou Hjortsberg a novos leitores, mas infelizmente os brasileiros estavam a muito tempo sem acesso a sua verdadeira obra-prima. Dois anos antes, o autor já havia escrito o roteiro de A Lenda (1985), filme de fantasia dark dirigido por Ridley Scott, com Tom Cruise e Mia Sara.