Andrea Killmore foi um nome que surgiu do nada no final de 2016 e está causando um burburinho na internet com um romance de estreia impressionante. Oculta por um pseudônimo, a autora já foi alguém importante dentro da polícia, mas teve que assumir uma nova identidade.

No livro, acompanhamos Verônica Torres, secretária da polícia que vê num chocante suicídio de uma jovem e na ligação de uma mulher desconhecida desesperada pedindo por ajuda a chance de se mostrar capaz de conduzir uma investigação. O que os dois casos farão é arremessar Verônica direto para o lado mais escuso e pérfido da humanidade, originando uma história bem costurada e que você deve ler o quanto antes. E é só isso que você precisa saber antes de mergulhar de cabeça em um dos melhores livros que li no ano passado.

Enquanto a maioria dos autores iniciantes traz em seus primeiros romances de suspense problemas de ritmo ou trazem soluções simples (ou mirabolantes) demais, Killmore escreve logo de cara um livro que te tira o fôlego e nem deixa você perceber se existem problemas ou não na história enquanto você vira as páginas loucamente para ver o que essa mente diabólica pensou para o próximo capítulo.

Andrea Killmore escreve como uma força da natureza que te suga para aquelas páginas, te prende em um frenesi até a última palavra que ela escreve e te deixa embasbacado com o que acabou de acontecer, mas já se vê pedindo por mais.

Os personagens criados pela autora são um de seus maiores trunfos nesse livro. Todos, sem exceção, são humanos, justamente por isso todos eles têm seus defeitos e suas qualidades, nenhum é cem por cento bom ou mau. Justamente por isso, a autora evita criar uma trama dicotômica que irá reencenar mais uma vez uma batalha do bem contra o mal, pelo contrário, Killmore cria um romance feito de camadas que são reveladas aos poucos e mostram um mundo muito mais cinza e dúbio do que parecia em um primeiro momento.

Depois de alguns anos encostada num cargo de secretária na Polícia Civil do Estado de São Paulo, você começa a aprender as vantagens de ser invisível. As pessoas não olham para você. Elas passam apressadas pela sua mesa, carregando suas pendências e seu próprios problemas, pedem um carregador emprestado, perguntam das novidades, querem saber da sua vida sem uma resposta diferente de “tudo certo”, comentam sobre o jogo de futebol da semana passada, mas nenhuma delas – escuta bem o que eu digo – nenhuma delas realmente olha para você. Você é invisível.

Outra coisa importante para se lembrar é que, embora eu seja fã de inúmeros escritores internacionais de suspense, como Gillian Flynn e Harlan Coben, é inegável que ler um autor nacional mostrando o lado mais vil e cruel da humanidade em seu país é envolvente e, certamente, aterrorizante. Ver São Paulo, a cidade em que nasci, cresci e sempre morei, pelos olhos de Verônica foi uma experiência única e eletrizante. Quero dizer, a personagem visita lugares em que eu já estive ou passei pela frente inúmeras vezes, como a Trattoria do Sargento, enquanto desvenda um crime terrível.

Essa brasilidade certamente não fica restrita apenas aos locais pelo qual a história passa, mas vai fundo em referências comuns ao nosso país, como uma vez em que aparece o Guia Quatro Rodas, tudo se encaixando de maneira natural à nossa realidade, até mesmo a maneira como as frases são construídas refletem isso.

E o que melhor para aumentar o suspense ao redor de um thriller do que o fato da própria autora ser um mistério? Desconhecida até por quem trabalha na editora, com a qual se comunicou através de advogados, Killmore é o pseudônimo de uma pessoa que já foi importante na polícia e que hoje, após sofrer uma perda pessoal, oculta sua identidade para se proteger. Arrancando elogios de gente como a criminóloga Ilana Casoy, a novelista Gloria Perez e o autor de Cidade de Deus, Paulo Lins, será que Killmore pode ser a nossa Elena Ferrante?

Perturbador e vertiginoso, Bom Dia, Verônica é um excelente primeiro passo de Andrea Killmore, que veio para chacoalhar a literatura policial brasileira, deixando-nos ansiosos para ver o que vem a seguir. Só resta saber se você tem coragem de ver o que acontece fora da Caixa.

Livro cedido pela Darkside Books para resenha.
Book’s not dead. <3


Autora: Andrea Killmore
Editora: Darkside Books
Número de páginas: 256
Ano: 2016
Sinopse: Andrea Killmore faz sua estreia com um livro que está destinado a se tornar uma referência na literatura policial brasileira. Amiga íntima do perigo, ela é uma revelação que não pode ser revelada, e seu verdadeiro nome continua um mistério. Em outra vida, ela foi alguém importante dentro da polícia. Após trabalhar infiltrada em um caso e sofrer uma grande perda pessoal, viu-se obrigada a assumir uma nova identidade. E com ela, uma nova vocação. Assim nasceu Andrea Killmore. Em Bom dia, Verônica, acompanhamos a secretária da polícia Verônica Torres, que, na mesma semana, presencia de forma chocante o suicídio de uma jovem e recebe uma ligação anônima de uma mulher desesperada clamando por sua vida. Com sua habilidade e sua determinação, ela vê a oportunidade que sempre quis para mostrar sua competência investigativa e decide mergulhar sozinha nos dois casos. No entanto, essas investigações teoricamente simples se tornam verdadeiros redemoinhos e colocam Verônica diante do lado mais sombrio do homem, em que um mundo perverso e irreal precisa ser confrontado. Andrea Killmore compõe thrillers como os grandes mestres, e sua experiência de vida confere uma autenticidade que poucas vezes encontramos em suspenses policiais, vibrante e cruel — como a realidade.