Lygia Fagundes Telles já é uma autora brasileira internacionalmente premiada, mas sua indicação ao Prêmio Nobel em 2016 intensificou suas aparições na mídia e gerou curiosidade em quem ainda não havia tido contato com sua obra. Apesar de não ter levado mais esse troféu para sua coleção, a presença de uma mulher brasileira na disputa é um indício de que a literatura caminha para se tornar uma arte mais democrática.

Por isso, o livro de hoje é Antes do Baile Verde, uma reunião de 18 contos que abrangem 20 anos da carreira da autora. A primeira conclusão sobre a leitura é que a escrita da Lygia é incrível, e isso não se refere apenas a sua capacidade de construir um texto claro e prazeroso, mas à resiliência de suas palavras, que tecem situações, sentimentos, personagens e linguagens extremamente diferentes entre si, porém que mantém o mesmo nível de perfeição. Esse domínio de texto facilita a empatia leitor-personagem e torna cada conto único e marcante. Quem gosta de prosa poética intimista não pode deixar de experimentar a escrita da Lygia e quem quer conhecer essa forma de narrativa está aconselhadíssimo a começar por ela, já que propõe um texto um pouco mais concreto do que Clarice Lispector e mais diversificado do que Lya Luft.

Abaixo, os contos estão agrupados por temática e não na ordem do livro, mas indiquei sua posição original entre parênteses.

O conto que dá título ao livro – Antes do baile verde (6) – está longe de ser o melhor, mas não deixa de ser interessante. Na história, uma jovem, junto com a empregada, dá os últimos retoques na fantasia que será usada em um baile. Enquanto conversam, fica claro o sentimento de culpa de Tatisa, pois para comparecer à festa, tem que deixar o pai doente sozinho. O conto aborda o egoísmo e a facilidade que os seres humanos têm de transferir a culpa para outro, a fim de deixar a consciência mais leve. Na construção do conto, o calor, os cigarros e a bebida aumentam junto com a dúvida de Tatisa: permanecer no mundo de vícios, aparências e futilidade ou cumprir suas responsabilidades e ser grata com aqueles que a amparam?

Falei sobre o conto-título primeiro apenas para matar a curiosidade do leitor, porque na minha opinião, o maior destaque do livro é Venha ver o pôr do sol (15). Esse conto é inusitado pelo cenário e situação, já que trata sobre o reencontro de ex-namorados para uma ”DR final” em um cemitério, com o pretexto de assistir ao pôr do sol no local. A partir da relação entre Ricardo e Raquel, podem ser feitas várias reflexões em torno dos relacionamentos abusivos, já que o conto mostra ciúme, possessividade e dificuldade de desapego – tudo isso de forma bem patológica. No entanto, a temática é apenas parte da causa do sucesso. As descrições das expressões dos personagens fazem a dissimulação de Ricardo e a desconfiança de Raquel crescerem nas entrelinhas, causando um leve, mas envolvente suspense.

“Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade.”

Helga (4) é outro conto notável no repertório de Lygia. É narrado por Paulo Silva Filho ou Paul Karsten, isso porque o personagem, apesar de ser brasileiro viveu na Alemanha, passando, inclusive pela Segunda Guerra. Ele conhece Helga, uma menina que usa uma prótese ortopédica e começa a esquematizar com seu pai, que é farmacêutico, o tráfico de penicilina. Entretanto, a falta de capital inicial faz o narrador tomar uma medida drástica e dar um golpe na família. Para o analista de Paulo/Paul, o amor por Helga não passa de uma autopunição.

A presença da música é uma aparição constante na obra de Lygia. Apenas um saxofone (3) mostra como a riqueza material está longe de significar conforto interno, através da construção do amor puro, sincero e livre entre Luisiana e um humilde saxofonista. A história contrasta a paixão e a dedicação do saxofonista por tudo que ama – principalmente pelo saxofone, que está sempre impecável – e a eterna insatisfação de Louisiana, que passa a exigir uma prova de amor cada vez maior. A música, no conto, sempre improvisada, gera um reflexão sobre o materialismo de Louisiana e o desapego do saxofonista:

”[…] você vai compondo e vai perdendo tudo, você tem que tomar nota, tem que escrever o que compõe! Ele sorria: Sou um autodidata, Luisiana, não sei ler nem escrever música […]”

O moço do saxofone (5) se passa em uma pensão/restaurante de má qualidade, onde sempre se ouve o som de um saxofone. O narrador é tão sensibilizado pela música do instrumento, que busca saber informações sobre o tal moço através dos clientes do local, que são artistas circenses, anões e os mais diversos personagens. O narrador descobre que a mulher do saxofonista trai ele com vários clientes do local e é movido por uma combinação de desejo e revolta. A música expressa a dor da traição e a solidão do músico e evoca memórias e sentimentos no narrador. Esse também é o conto em que percebemos a maior mudança no estilo de escrita de Lygia para se adequar à linguagem do narrador.

”Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo […]”

Ainda no quesito musical, temos o conto Meia-noite em ponto em Xangai (9), que retrata a rotina de uma cantora de ópera após uma apresentação importante. Ela é bajulada pelo amigo Stevenson, que não poupa elogios sobre sua performance. Durante o diálogo dos dois, percebemos o tratamento preconceituoso que a cantora dá a seu criado, que por ser chinês, é considerado apenas um objeto. O final é aberto e deixa no ar a possibilidade de que Wang, o criado, talvez seja mais esperto do que pareça. A música é usada para ilustrar o estilo de vida da personagem, baseado em luxo, futilidades e pela busca por reconhecimento.

O livro também traz vários contos que retratam a vida cotidiana de casais. O primeiro deles, Os objetos (1), narra uma conversa entre Lorena e Miguel acerca de vários objetos do ambiente, que fazem com que eles relembrem momentos da vida. O conto aborda de forma sucinta a temática das doenças mentais e seus efeitos em um relacionamento, mostrando a figura da mulher como suporte psicológico da relação. O conto A Chave (8) é dedicado para ninguém mais, ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade e mostra a relação entre Tom e Magô. A diferença de idade entre os dois é gritante e, apesar de Tom ter aberto mão de seu antigo relacionamento com Francisquinha por essa aventura, a energia de Magô começa a lhe deixar exausto e o tempo que ela dedica a festas e futilidades deixam de fazer sentido para a fase de vida de Tom. A saudade do conforto de uma rotina baseada na realidade, e não nas aparências faz Tom desejar seu relacionamento com Francisquinha de volta.

”O dia inteiro era vestir e desvestir para se vestir em seguida.”

O conto As pérolas (17) apresenta  o casal Tomás e Lavínia, que vive uma relação semelhante a de Tom e Magô no que se refere ao contraste entre a vitalidade da figura feminina e o cansaço da masculina. Entretanto, Tomás não deseja se ver livre da mulher, como acontecia com Tom, e sim, libertá-la de si próprio para que seja feliz, mesmo que essa felicidade envolva a companhia de outro homem. É claro, conceder esse benefício não é tão simples e é aí que vemos a metáfora das pérolas, o colar que Tomás hesita em entregar à Lavínia. Já no conto Eu era mudo e só (16), conhecemos Manuel e Fernanda, um casal aparentemente perfeito, que após uma relação de 12 anos se rende ao comodismo. A visão da história é dada por Manuel, que se sente saturado pelo excesso de cuidados da mulher e por mais que esteja sempre ao lado de Fernanda, já que  se distanciou dos amigos e de sua profissão pelo relacionamento, se sente só e sem capacidade de sair dessa situação. A superioridade financeira da família de Fernanda também contribui para essa anulação da personalidade de Manuel, como se o dinheiro comprasse o controle da relação. O conto A ceia (14), por sua vez, trata de um encontro de ex-namorados em que o climão pós-término de relacionamento é bem visível. A dificuldade que Alice tem de desapegar-se de Eduardo é expressada com descontroles emocionais, que Eduardo se esforça para responder de maneira educada, embora sempre deixando claro que acabou. A conversa que eles têm se passa em um restaurante prestes a fechar e gira em torno das súplicas de Alice e de seus comentários sobre a atual companheira de Eduardo.

A Lygia também mostra sua sensibilidade para escrever sobre relações familiares. Verde Lagarto Amarelo (2) nos apresenta a desigualdade entre os irmãos Rodolfo e Eduardo, na qual Eduardo é privilegiado. Essa disparidade surgiu no ambiente familiar e se agravou durante a trajetória deles, fazendo com que Rodolfo tenha um complexo de inferioridade, movido pela obesidade e pelo suor excessivo, e para calar a mistura de inveja e ciúmes que tem do irmão, se isola. Na história, Eduardo procura Rodolfo animadamente para dar-lhe uma importante notícia, embora não perceba que ela poda piorar a vida do irmão. No conto O menino (18), é estabelecida uma relação de cumplicidade entre mãe e filho, quando o menino vai ao cinema com a mãe e presencia seu encontro com um amante. A cena lhe choca, mas uma combinação de amor e ingenuidade lhe impedem de entregá-la a seu pai.

Apesar do talento para representar o cotidiano de forma tão profunda, a Lygia também arrasa criando contos não tão claros, que envolvem um pouco de mistério e, até, elementos que de leve (mas bem de leve mesmo, tá?) conversam com a literatura fantástica. Em A caçada (7), o personagem encontra uma tapeçaria intrigante em uma loja de antiguidades, passa então a visitá-la todos os dias e sempre nota algo diferente em sua figura, sentindo que já presenciou a cena. Essa fixação leva a vida do homem às últimas consequências e deixa a seguinte reflexão ao leitor: na vida, somos a caça ou o caçador? É um dos contos mais subjetivos do livro. Em O jardim selvagem (12), conhecemos Daniela, a noiva de Tio Ed. A moça misteriosa tem hábitos peculiares, que chocam a narradora e Tia Pombinha; um deles é o fato de sempre usar uma luva em uma das mãos. Certo dia, Daniela mata um cachorro doente com um tiro na cabeça, sob a desculpa de acabar com sua dor. A seguir, quem fica doente é Tio Ed e a sequência da história deixa a dúvida no ar: Daniela usa a luva para esconder marcas em sua mão ou marcas que sua mão causa? Já o conto Natal na barca (13) é um dos que melhor descreve o cenário e que faz o leitor realmente se sentir no local, uma barca com a narradora, um velho e uma mulher que segura uma criança. A conversa que ambas as mulheres tem é basicamente sobre as desgraças da vida e a mulher revela que esta na barca para levar a criança que está doente ao médico. No diálogo, nota-se perfeitamente o ceticismo da narradora em contraste com a fé da mãe do bebê. Em determinado ponto da viagem, a narradora desconfia que a criança morreu e quer ir embora logo para que não precise presenciar a reação da mãe ao fazer esta descoberta. Entretanto, ao fim da viagem, o conto mostra a vantagem da fé sobre a descrença.

O conto A Janela (10) mostra a história de um homem, que vai até o quarto de uma prostituta para observar uma janela, onde supostamente houve uma roseira. Segundo o relato dele, seu filho havia morrido naquele quarto e cuidava da roseira, que é retrata com muito simbolismo. A mulher se retira do quarto para buscar um refresco, mas volta com um desafio para o leitor: decidir se o relato do homem é verdadeiro ou parte de sua imaginação. Em Um chá bem forte e três xícaras (11), temos uma história bem difícil de interpretar. É retratada a conversa entre Maria Camila e sua empregada, enquanto aguardam uma visitante. A empregada se esforça para obter informações sobre a menina, mas a própria Marica Camila parece não saber ao certo quem esperar. O final do conto é aberto e deixa o leitor livre para tirar suas próprias conclusões.

Se, mesmo depois dessa resenha (ou, mais precisamente, 18 pedidos de, pelo amor de Deus, leia o que essa diva escreve, porque é só sucesso!), você ainda não se convenceu sobre a importância dessa leitura, fica a opinião de um amigão da Lygia, que até ganhou um conto dedicado no livro:

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1966.
Lygia querida:
[…] O livro está perfeito com unidade na variedade, a mão é segura e sabe sugerir a história profunda sob a história aparente. Até mesmo um conto passado na China você consegue fazer funcionar, sem se perder no exotismo ou no jornalístico. Sua grande força me parece estar no psicologismo oculto sob a massa de elementos realistas, assimiláveis por qualquer um. Quem quer a verdade subterrânea das criaturas, que o comportamento social disfarça, encontra-a maravilhosamente captada por trás da estória. Unir as duas faces, superpostas, é arte da melhor. Você consegue isso. Tão diferente da patacoada desses contistas que se celebram a si mesmo nos jornais e revistas e a gente lê e esquece o que eles escreveram! Conto de você fica ressoando na memória, imperativo.
Tchau, amiga querida. Desejo para você umas férias tranquilas, bem virgilianas.

Carta de Carlos Drummond de Andrade.


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Autora:
Lygia Fagundes Telles
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 
208
Ano:
2009
Sinopse:
Reunião de narrativas escritas entre 1949 e 1969, Antes do baile verde é considerado por muitos críticos o livro de contos literariamente mais bem-sucedido de Lygia Fagundes Telles.