Aviso: Vou adiantar uma coisa, essa resenha vai acabar sendo, na verdade, uma maneira de convencê-lo que um livro sobre depressão, Austrália, transtornos mentais e guaxinins montados em gatos deve ser a sua próxima leitura. Não dá para ser imparcial com guaxinins empalhados usando gatos como montaria.

O meio editorial é extremamente competitivo, afinal, as livrarias não têm espaço o suficiente para abrigar e expôr todos os títulos lançados em um mês; só para servir de exemplo, o Grupo Editorial Record publica uma média de 40 livros, mensalmente, entre seus diferentes selos. E para chamar a atenção do leitor as editoras lançam de várias táticas, seja colocando elogios de autores ou de veículos de imprensa bem conhecidos na capa, como o Neil Gaiman e o The New York Times, promovendo vitrines criativas em lojas ou, então, a editora pode ser alucinadamente feliz e colocar uma capa brilhante com um guaxinim eufórico e sorridente, erguendo as patas. Certamente o guaxinim é a melhor escolha.

É como tomar um comprimido para uma topada, mas que também serve para curar a peste negra e fazer crescer braços amputados.

Tudo nesse livro começa com os transtornos psicológicos com os quais Jenny Lawson tem que lidar diariamente, como transtorno de ansiedade, TDAH, TOC e depressão. Depois de passar por mais um período depressivo, Lawson decidiu uma coisa: ela seria alucinadamente feliz e construiria memórias alegres para ajudá-la a lidar com os seus transtornos. E, bem, ela consegue.

Passando longe de ser um livro de autoajuda, embora te faça refletir várias vezes, o que Jenny faz aqui é escrever abertamente sobre todos os seus problemas e, então, rir de si mesma. Desmistificando o tratamento, o uso de remédios e todos os tabus que envolvem todos os seus transtornos mentais, a autora usa uma linguagem leve e divertida para criar um livro engraçado e inspirador que vai mostrar o valor das pequenas e simples coisas da vida, como o de abraçar um coala vestido como um coala.

Entretanto, este não é um livro que descamba para se tornar um guia de 12 maneiras para você ser feliz apesar de tudo. Pelo contrário, Alucinadamente Feliz traz momentos de frustração, tristeza ou tédio, que lembram que por mais que queremos nunca conseguiremos ser absolutamente felizes todas as horas. E o que torna este livro uma das leituras mais divertidas que já fiz é justamente o fato de que Jenny Lawson faz um relato sincero sobre sua vida, expondo seus problemas e os momentos mais comuns e alucinantes que já viveu. Na verdade, até o que é comum na vida da autora, não é exatamente comum.

De discussões meio loucas com o marido e com os terapeutas a ter um pai taxidermista, das viagens internacionais, tudo é escrito de uma maneira leve, engraçada e que brinca com o leitor em todos os momentos, constantemente quebrando a quarta parede. Logo, não é de se espantar a vontade de derramar um balde amarelo no livro para marcar as suas melhores partes.

No caminho para cá, vi uma nuvem parecida com um crânio. A primeiro coisa que pensei? Comensais da morte.

Inclusive as várias citações e menções à cultura pop vão alargar ainda mais o seu sorriso durante a leitura.

Alucinadamente feliz é um livro que lembra que todo mundo é louco, nem que seja um pouquinho. Assim como é um livro sobre os opostos, como vamos do céu ao inferno no mesmo dia e que está ok não ser absurdamente alegre o tempo todo. Enfim, este é um livro que indico para todo mundo, seja fã de coalas, privadas japonesas hi-tech ou comprador ávido de roupinhas para gato.

E, se eu ainda não te convenci, chegou a hora de apelar e colocar um dos meus trechos favoritos do livro.

Eu me tornei tão talentosa em ter distúrbios que posso literalmente arrumar um dormindo. Victor não acha que isso é motivo para se gabar, mas talvez seja porque ele não tem nenhum distúrbio e sente inveja.

Cruzes! Isso não é uma disputa, Victor.

[Mas, se fosse uma disputa, eu estaria ganhando. De lavada.]


alucinadamente-feliz

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Autora: Jenny Lawson
Tradutor: Carlos Sussekind
Editora: Intrínseca
Ano: 2016
Número de páginas: 352
Sinopse: Jenny Lawson está longe de ser uma pessoa comum. Ela mesma se considera colecionadora de transtornos mentais, já que é uma depressiva altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada, distúrbio de automutilação brando, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania (que é a compulsão de arrancar os cabelos). Por essa perspectiva, sua vida pode parecer um fardo insustentável. Mas não é.

Após receber a notícia da morte prematura de mais um amigo, Jenny decide não se deixar levar pela depressão e revidar com intensidade, lutando para ser alucinadamente feliz. Mesmo ciente de que às vezes pode acabar uma semana inteira sem energia para levantar da cama, ela resolve que criará para si o maior número possível de experiências hilárias e ridículas a fim de encontrar o caminho de volta à sanidade.

É por meio das situações mais inusitadas que a autora consegue encarar seus transtornos de forma direta e franca, levando o leitor a refletir sobre como a sociedade lida com os distúrbios mentais e aqueles que sofrem deles, sem nunca perder o senso de humor. Jenny parte do princípio de que ninguém deveria ter vergonha de assumir uma crise de ansiedade, ninguém deveria menosprezar o sofrimento alheio por ele ser psicológico, e não físico. Ao contrário, é justamente por abraçar esse lado mais sombrio da vida que se torna possível experimentar, com igual intensidade, não só a dor, mas a alegria.

O livro atrairá todo tipo de leitor por suas situações hilárias, mas tem um apelo especial para quem precisa conviver com transtornos mentais, quer como paciente, quer como parente ou amigo.