A família de Li Lan era uma família bastante rica, mas que havia decaído nos últimos anos, em grande parte pelo vício em ópio de seu pai, e agora levava uma vida modesta, “no limiar da classe média”, como diz a personagem. E embora a sua Amah se preocupe em encontrar alguém que se una a Li Lan em matrimônio, certo dia a personagem recebe a proposta de casar-se com Lim Tian Ching, único filho dos Lim, uma das famílias mais ricas da região; mas há um porém: ele está morto. É essa a história que Yangsze Choo vai se propor a contar em A Noiva Fantasma, livro publicado em 2015 pela Darkside Books, como parte da coleção DarkLove.

Certa noite, meu pai perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma. Perguntar talvez não seja bem a palavra. […] A prática de arranjar o casamento de uma pessoa morta era rara, e costumava ser feita para aplacar um espírito. Uma concubina falecida, que tenha gerado um filho, pode ser oficialmente casada para elevar seu status ao de esposa. Ou dois amantes que tenham morrido de forma trágica podem se unir depois da morte. Disso eu sabia. Mas casar alguém vivo com um morto era um caso incomum e, de fato, horrível.

Primeiro ponto que quero ressaltar nessa resenha: não confunda A Noiva Fantasma com o longa de animação A Noiva-Cadáver, esse livro definitivamente não tem nada a ver com a obra de Burton.

Logo de cara o que vai surpreender no livro é a maneira como a autora constrói a Malaia, a região do continente asiático onde a história acontece. A trama e as explicações sobre as tradições locais, as descrições da região, a religiosidade e o contexto histórico da época são entrelaçadas e indissociáveis, fazendo com que a transição de uma para outra não seja feita de maneira brusca ou que dê a sensação de que a autora copiou e colou um artigo da Wikipédia no meio da história, como já vi acontecer em outros livros.

Ao iniciar a história já explicando o título do livro e um pouco do contexto, Yangsze Choo não precisa mais explicar o porquê Li Lan seria a noiva fantasma, o que permite o desenvolvimento dos desdobramentos do estranho pedido de casamento. A partir disso, a história começa a avançar e vai aos poucos ficando mais fantasiosa, ou seja, a obra começa realista, vai ganhando alguns traços de realismo fantástico, tornando-se um suspense sobrenatural, até que culmina em uma fantasia na qual Li Lan explora um plano espiritual.

Um dos trunfos de Yangsze Choo com A Noiva Fantasma é a criação de uma mitologia própria baseada em crenças chinesas e malaias, que dão um tom único para a trama. Ela se aprofunda, por exemplo, nos ritos fúnebres malaios, que incluem rituais nos quais a família queima objetos e alimentos, verdadeiros ou feitos de papel, para que o morto utilize no mundo espiritual, incluindo imóveis e até golens para servir o morto. Isso somado ao uso do dinheiro funerário – as Notas do Inferno – fazem com que a vida no plano espiritual se assemelhe à terrestre, com fantasmas pobres servindo aos fantasmas ricos e a existência de muitas concubinas para os mortos mais ricos, demonstrando o quanto as pessoas seguiram apegadas aos bens materiais mesmo após a sua morte.

[…] um criado que preparava objetos funerários para serem queimados em um dos pátios. Eram pequenas efígies em arame e papel colorido que seriam queimadas para que o finado as recebesse no mundo dos mortos. Cavalos de papel para que o morto montasse, grandes mansões de papel, servos, comida, montanhas de dinheiro falso, carruagens e até mobiliário em miniatura. […] O devoto poderia, de todo modo, queimá-los a qualquer tempo em honra a seus antepassados, já que eles ficariam mais pobres no mundo dos mortos se essas oferendas não fossem feitas. Sem descendentes ou enterros apropriados, os mortos vagariam incessantemente como espíritos famintos, incapazes de renascer.

Ainda na construção desse universo, várias das regras misturam diferentes elementos de ambas as culturas, como a capacidade dos espíritos influenciarem os sonhos dos vivos e a ligação entre amantes, enriquecendo a história, inclusive essa mistura até dá um novo tom para elementos sobrenaturais recorrentes, como a possessão.

O além, como você certamente pode ver, tem suas normas de organização. Há regras para a passagem de fantasmas por esse mundo e para suas reencarnações.

Outro cuidado da autora que se torna bem evidente é a de que Choo sabe estruturar a visão da personagem para condizer com o período histórico e o local em que Li Lan nasceu, não impondo uma visão do século XXI para uma personagem do século XIX com uma cultura totalmente diferente da nossa. Ou seja, para ela é “comum” a ideia de uma proposta de casamento ficar ao cargo da família e não dos jovens, por exemplo. Assim, no decorrer da história, vamos entendendo um pouco de como era a condição das mulheres na sociedade malaia da época e do modo como elas eram submissas em uma sociedade inteiramente patriarcal. Outro exemplo é a competição entre as mulheres para testar suas habilidades artesanais e domésticas em importantes eventos da sociedade malaia.

Embora não subverta todos os clichês e esterótipos presentes no livro, Li Lan é uma personagem apaixonante, bem humorada e sonhadora, que ao mesmo tempo que não é uma chutadora de bundas, também não é só uma mocinha indefesa. Ao alternar momentos em que ela se safa de situações complicadas por seu esforço próprio e momentos nos quais reconhece sua fragilidade em meio ao mundo espiritual no qual tudo é desconhecido para ela e pede ajuda, a personagem se torna extremamente humana e real. O romance, embora dite muitas vezes o tom da história, não define a trama ou a própria Li Lan e isso conta como mais um ponto positivo para a autora.

A Darkside Books consegue agregar ainda mais qualidade à obra com seu projeto gráfico, que conversa com a trama, ajudando na imersão do leitor. A tradução de Leandro Durazzo não só foi competente por traduzir bem o texto original, como por explicar, através das notas de rodapé, vários termos e referências das culturas apresentadas no decorrer da obra.

A Noiva Fantasma, de Yangsze Choo, não reinventa a roda e se aproveita de várias premissas já conhecidas do leitor, mas isso passa a ser um elogio quando a autora sabe utilizá-las, como é o caso, e as culturas malaia e chinesa dão um frescor  único para a história. De uma proposta de se casar com um morto até às conspirações e rebeliões no plano espiritual Inferno, é delicioso acompanhar Li Lan por entre os espíritos, as oferendas funerárias e o amor.


fantasma-yangsze-choo-capa

Autora: Yangsze Choo
Tradutor: Leandro Durazzo
Editora: Darkside Books
Ano: 2015
Número de páginas: 360
Sinopse: “Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma…”

1893. Li Lan é uma jovem que recebeu educação e cultura, mas que vive sem grandes perspectivas depois da falência de seus pais. Até surgir uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto.

A NOIVA FANTASMA, que a DarkSide® Books publica no Brasil em 2015, é o surpreendente romance de estreia de Yangsze Choo, a escritora de ascendência oriental que está encantando fãs por todo o mundo.