Poucos autores são como o brasileiro Jorge Amado, que soube construir histórias com espíritos gigantes em cenas comuns do cotidiano de sua época ou de décadas antes, misturando vez ou outra com um pouco de realismo fantástico. Sabe como poucos ser cômico, debochando (e aproveitando) das ironias da vida e, ainda assim, permanecendo poético. De seu nascimento, em 1912, até a sua morte em 2001, Amado foi baiano até a alma e conseguiu impregnar suas obras com muito dendê, sempre trazendo a Bahia para as páginas de seus livros.

De produção numerosa e de muito sucesso, o autor escreveu 49 livros no total, traduzidos para mais de 80 países e lhe rendendo o Prêmio Camões em 1994, além de adaptações para o cinema, o teatro e a televisão, originando clássicos nestas mídias como Dona Flor e seus Dois Maridos e Gabriela. E embora muitos sempre se lembrem dele por Capitães da Areia, leitura obrigatória de muitos vestibulares, o livro mais elogiado do autor é a novela A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, publicada originalmente em 1959 na revista Senhor e atualmente editada pela Companhia das Letras.

Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante.

Joaquim Soares da Cunha sempre foi um cidadão exemplar, um funcionário esforçado, um pai e um marido fenomenal, até que ele começa a largar toda a sua vida como Joaquim e se torna Quincas Berro D’Água, o verdadeiro rei dos vagabundos da Bahia, o cachaceiro-mor de Salvador, “o vagabundo por excelência”; e para um personagem que teve uma vida dupla, nada mais justo que ele tenha tido uma morte dupla.

Certa manhã, ele amanhece morto, por motivos naturais, em um cortiço pobre, e é aí que a família quer remendar o que sobrou de respeitoso em Quincas, vestindo-o com elegância e tentando manter as aparências, mas o personagem, mesmo supostamente morto, ri em seu caixão dos esforços de sua família. À noite, quem vê o defunto são os companheiros de noite do cachaceiro-mor de Salvador, que, meio bêbados e de luto, dão de beber ao morto e o levam para passear pela cidade até a orla, onde encontra seu derradeiro destino, no mar da Bahia, onde sempre quisera ser sepultado. E a dúvida que fica é: afinal, qual foi a verdadeira morte de Quincas Berro D’Água?

Era um morto pouco apresentável, cadáver de vagabundo falecido ao azar, sem decência na morte, sem respeito, rindo-se cinicamente, rindo-se dela, com certeza de Leonardo, do resto da família. […] Era o cadáver de Quincas Berro D’Água, cachaceiro, debochado e jogador, sem família, sem lar, sem flores e sem reza.

O texto do Jorge Amado, como já era esperado, é fantástico e fascina o leitor da primeira até a última linha. Obviamente uma ou outra referência se perdem devido a passagem do tempo, porém o livro continua a dialogar com as novas gerações de leitores, ainda que quase 60 anos tenham se passado desde sua publicação original, o que reafirma o seu posto como um verdadeiro clássico nacional.

Curto e cômico, Quincas Berro D’Água não é difícil de se ler e pode ser uma boa porta de entrada àqueles que têm vontade de começar a ler Jorge Amado. O conflito tratado pelo autor entre a rigidez e a liberdade da vida boêmia se apresenta nas entrelinhas, enquanto o leitor ri e se delicia com o texto.

Em 2010, a novela foi adaptada para os cinemas com direção de Sérgio Machado e o ator Paulo José dando vida ao Quincas, e recebeu críticas medianas, atingindo uma nota média de 3,5 no AdoroCinema.

Por fim, deixo uma dica de Quincas: “Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.”


morte-morteAutor: Jorge Amado
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2008
Número de páginas: 120
Sinopse: “Saí da leitura dessa extraordinária novela […] com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século XIX”, declarou Vinicius de Moraes. Escrita em 1959, esta pequena obra-prima de concisão narrativa e poética é tida por muitos como uma das mais extraordinárias novelas da nossa língua.
Numa prosa inebriante, que tangencia o fantástico sem perder o olhar aguçado para as particularidades da sociedade baiana, Jorge Amado narra a história das várias mortes de Joaquim Soares da Cunha, vulgo Quincas Berro Dágua, cidadão exemplar que a certa altura da vida decide abandonar a família e a reputação ilibada para juntar-se à malandragem da cidade.
Algum tempo depois, Quincas é encontrado sem vida em seu quarto imundo. Sua envergonhada família tenta restituir-lhe a compostura, vesti-lo e enterrá-lo com decência; mas, no velório, os amigos de copo e farra dão-lhe cachaça, despem-no dos trajes formais e fazem-no voltar a ser o bom e velho Quincas Berro Dágua. Levado ao Pelourinho, o finado Quincas joga capoeira, abraça meretrizes, canta, ri e segue a farra em direção à sua segunda e agora apoteótica morte.