Escrever sobre Edgar Allan Poe hoje, quase 200 anos após seu primeiro trabalho, é uma tarefa hercúlea. Gente mais conhecida e mais capacitada do que eu já fez isso primorosamente, posso indicar textos de Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Charles Baudelaire e mais uma lista gigantesca de pessoas que tiraram algumas horas, dias, semanas ou anos de suas vidas para escrever sobre o eterno escritor de O Corvo e o traduzi-lo para os mais diversos idiomas. Esta é, aliás, sua obra mais conhecida.

Criar o gênero policial e os típicos personagens detetivescos, mergulhar no universo da proto ficção científica, desnudar obras de outros autores, amedrontar gerações e até escrever sobre decoração interna – sim, isso é sério, pode pesquisar -, são fatos pequenos para o leitor comum quando estes são postos frente a frente à ave de negras plumas que entra por uma janela vinda das trevas infernais e que sempre repete “nunca mais”.

O Corvo é um poema publicado em 1845, e que trata sobre a visita dessa lúgubre ave a um jovem que acaba de perder o seu amor. Irônico e maldito ou simplesmente preso à única palavra que aprendeu com seu antigo mestre, o corvo apenas diz nunca mais – Nevermore, no original — para todas as perguntas que o rapaz faz.

Tentar analisar O Corvo em toda sua magnitude é uma tarefa de espelhar o próprio Poe e seu texto A Filosofia da Composição. A pouca quantidade de versos, quando comparada a obras como O Paraíso Perdido, de John Milton, é uma decisão feita em vista da crença pessoal do autor de que se a leitura não pode ser feita de uma vez só, sem qualquer pausa, ela está sujeita a ser interrompida e, com isso, ver todo seu encanto e impacto perder-se. Então Poe passou à decisão de ver o que queria passar com seu texto e define cada detalhe de uma maneira que tanto é técnica, quanto é subjetiva.

Quando o próprio autor disseca o seu texto mais famoso e explica como construiu cada parágrafo, é notável sua singularidade frente a autores que se levam a sério demais e dizem inteligentes demais para que um “simples” leitor entenda o seu processo criativo. Dessa forma, nada deixa tão claro o quanto Poe se afirma como um escritor pop durante toda sua vida, sempre se preocupando mais com a teia de histórias na qual irá emaranhar quem lê seus textos do que em proteger os bastiões da autoproclamada alta literatura.

Para aqueles que procuram uma edição para conhecer Poe, certamente indico aquela recém-lançada pela Darkside, parte da linha Medo Clássico, não por eles serem parceiros do site, mas pela ótima nova tradução feita pela Marcia Heloisa – além da presença das já clássicas traduções de Machado de Assis e de Fernando Pessoa e da versão original, em inglês, para O Corvo -, pelas ilustrações em xilogravura feitas pelo artista gráfico Ramon Rodrigues e pelo acabamento de luxo em capa dura. Também é interessante a separação temática feita pela editora, que reúne alguns dos textos mais famosos do autor a outros menos conhecidos, apresentando alguns dos melhores contos de Poe reunidos.

Porém mais do isso, apenas o convido a abrir esse livro – ou outra edição que você já tenha em casa, o importante é conhecer o autor – e entrar sem convite no mundo de Poe, que aterrorizou e encantou gerações e seguirá o fazendo por muitas mais.

Bem-vindo ao universo de Poe. Não há mais volta.