Wonderstruck final de verdade

E se eu sofresse um acidente? E se eu quebrasse as pernas e as costelas? E se tivesse uma doença contagiosa que me obrigasse a abdicar do contato humano para sempre? E se ficasse cego e tivesse que me mudar para uma escola especial?

E se…?

74 dias para o fim é um livro inteligentíssimo que aborda o tema bullying na escola, voltado para um público juvenil, do ensino médio. O livro retrata os efeitos que o ato de praticar bullying causa tanto aos agressores quanto à vitima; também como é o envolvimento dos pais, da escola e a importância da amizade nessas horas.

A história se passa com Valdir, que começa a sofrer bullying dos colegas de classe e nem ao menos sabe o porquê disso. A única coisa que sabe é que Guiga era o responsável pelas práticas de bullying contra o garoto. Valdir começa a se questionar, tudo o que ele pensa é “Por quê?”, mas nenhuma resposta lhe surge e ele sempre procura entender o que há de errado com ele para que seus colegas de classe o perturbem tanto. Com isso, ele começa a fazer uma contagem regressiva para sua formatura a partir do dia em que começou a sofrer nas mãos dos alunos, são apenas 74 dias para o fim. Ele pode suportar isso, pensa ele. Ainda mais que tem a amizade de uma pessoa influente no âmbito escolar que é a Renata. Tudo seria fácil, pensou ele.

Aos poucos, o garoto percebe que o problema nunca fora com ele, pois assim como todos, ele é “normal” e não tem um diferencial chamativo. E também nunca fez nada de ruim para ninguém. E ele tinha em mente que poderia suportar os 74 dias. Mas o que ele não esperava, era que após sofrer inúmeras injustiças, sua mãe descobrisse e tomasse partido para que o filho parasse de sofrer o que sofria no colégio. Sendo assim, começa uma luta pela proteção de Valdir. Mas isso acaba resultando em nada de bom, pelo contrário, a vida de Valdir piora. E é a partir daí que Valdir toma uma decisão incrível e correta, luta pela sua dignidade e dá um desfecho inesperado para a história.

Uma das coisas mais interessantes retratadas é o psicológico do personagem sendo danificado ao decorrer de toda a história. O questionamento o leva a tirar conclusões desesperadoras de todo o ocorrido, como, por exemplo, pensar: “E se eu sofresse um acidente? E se eu quebrasse as pernas e as costelas? E se tivesse uma doença contagiosa que me obrigasse a abdicar do contato humano para sempre? E se ficasse cego e tivesse que me mudar para uma escola especial? E se…?”. Valdir começa a imaginar mil coisas ruins que poderiam acontecer a ele ou ao seu algoz, e que poderiam ser facilmente um escape para essa situação. Também interroga os pais sobre os sentimentos deles pelo garoto perguntando: “Mas, e se eu não fosse seu filho? Você gostaria de mim por quê?”.

Os pais percebem a mudança no comportamento do filho. Entretanto, o medo que ele sente de que os pais descubram os ataques que vem sofrendo, é maior. Então, toda vez quando questionado sobre o que está acontecendo, Valdir é evasivo e um excelente “mentiroso” e muda de humor instantaneamente para escapar das investidas dos pais.

Comovente, inspirador e reflexivo. Uma ótima leitura que retrata o cenário escolar contemporâneo e ajuda a lidar com tal assunto da forma que realmente é: um não conto de fadas. Um livro qualificadamente recomendado para as bibliotecas das escolas e para os pais de estudantes do ensino médio, que melhor podem compreender essas situações. O livro aborda bem as transformações que ocorrem no protagonista. Desde a sua desolação à sua ascensão, Valdir emociona e encanta.

A edição da editora Lê traz uma página muito clara e faz a leitura ser um pouco cansativa por forçar a vista, mas nada que impeça de aproveitar bem a leitura. A escrita da Angélica Lopes é digna de uma leitura rápida e direta, sem devaneios a respeito das ideias ou contradições do tema. A ilustração feita por Maurizio Manzo é excepcional. Antes do capítulo se iniciar, há uma ilustração que correlaciona-se com o assunto abordado, transmitindo um sentimento a mais ao leitor, enriquecendo o texto e sincronizando-o através de simbologias. No livro há diversos números e engrenagens pelas páginas representando o tempo, tempo esse que são os 74 dias para o fim. Um trabalho em dupla muito bem feito.

 

A quebra do tabu feita pela autora é de uma bravura tamanha, e trata muito bem a realidade atual vivenciada pelos adolescentes. Digo que o tema ainda é abordado de uma forma mais leve, não muito polêmico e explícito como realmente é no dia a dia. E nem muitos adolescentes tomam a atitude de Valdir. O livro é mais para apresentar o tema, conscientizar as pessoas sobre o bullying e mostrar a melhor alternativa de saída para a situação, na minha opinião, apesar de não ser a mais escolhida.

4,5/5

Distribuidora


 

74 DIAS PARA O FIM FICHASEditora:
Ano: 2014
Autor(a): Angélica Lopes
Ilustrador(a): Maurizio Manzo
Páginas: 184
Sinopse: O livro narra a trajetória dos últimos 74 dias de aula antes da formatura do jovem aluno Valdir, às voltas com tormentos relacionados a provocações físicas, emocionais e virtuais. Narrado em primeira pessoa, a história revela os sentimentos de grupos de adolescentes, muitas vezes mal explicados e/ou compreendidos e que redundam num enorme sofrimento para aquela vítima que não sabe se rebelar ou exigir diálogo. Muitas surpresas são reveladas no dia da formatura, deixando no leitor a sensação do que poderia ser evitado, caso o problema fosse cortado pela raiz.