Nem sempre quando apresentadores e outras pessoas que trabalham na televisão resolvem se aventurar pelos livros temos um bom resultado final. Felizmente, não é deste problema que Jô sofre, tanto que já provou inúmeras vezes a sua destreza ao escrever, e, desta vez, prova novamente com As Esganadas, que consegue saciar a fome por um ótimo livro até do leitor mais voraz.

Logo no início do livro, com um quê de Hitchcock, o assassino já se mostra na figura de Caronte, dono de uma funerária, que matou sua mãe, uma mulher gorda, achando que se livraria dela, mas que até hoje se vê perseguido pelo fantasma desta, pela qual nutre uma relação de amor e ódio, em cada mulher gorda que observa. E desta maneira mata suas vítimas obesas com uma crueldade tão grande, quanto a criatividade usada para revelar as suas “obras“.

Do outro lado, temos uma equipe formada por um detetive português, astuto como Holmes, Tobias Esteves, a jornalista Diana, o delegado Noronha e o oficial Calisto, reunidos cada um por suas razões e que tentam desvendar o misterioso caso das esganadas, aliás as tais esganadas ganham capítulos próprios, nos quais se conhece um pouco de suas histórias.

O primeiro ponto positivo que é possível notar é a quebra de alguns clichês nas obras do gênero, já que você conhece o assassino desde o começo e se torna uma espécie de cúmplice dos seus atos. Com isto, assistir aos esforços infrutíferos da equipe de investigação o faz, ao melhor estilo daquela sua tia que tenta advertir os personagens da novela, querer avisá-los sobre Caronte. Outro ponto positivo é a ambientação fenomenal que o autor faz, desenvolvendo a trama durante a ditadura de Getúlio – o Estado Novo – e  misturando o real e o fictício de tal maneira que até parece meio difícil de diferenciá-los. Além disso, os personagens, ainda que caricatos, possuem seu carisma e um desenvolvimento simples.

O principal ponto negativo da obra é que durante todo o livro parece que somente o Tobias parece saber o que está fazendo, sendo o único a dar a maioria dos palpites certeiros. Mas, fora isso, a leitura flui bem e a veia humorística (com muita ironia correndo solta) do Jô é presente em todo o livro, assim, não se assuste caso você perceba que está rindo logo depois de mais uma das crueldades de Caronte.

A edição da Companhia das Letras não foge ao atual padrão criado pelas editoras, ou seja, é brochura com as folhas amarelas. O destaque do tratamento da editora é a gramatura do papel e a diagramação, que com algumas imagens bem postas em alguns momentos do livro dá um maior dinamismo a história.
As Esganadas, ainda que possa parecer uma história comum e meio clichê, bebe de fontes hitchcockianas e quebra um pouco da fórmula “imposta” pela maioria dos livros do gênero. Junte a isso o fato de que quem está por trás do livro é Jô Soares, com toda sua ironia (mais afiada do que nunca), e você terá aquele típico livro que você irá engolir de uma vez só.

5/5


 

As EsganadasEditora: Companhia das Letras
Ano: 
2011
Autor: 
Jô Soares
Páginas: 264
Sinopse: Como ator e comediante, o Jô é um grande fazedor de tipos. Sabe como poucos construir um personagem, defini-lo com um detalhe e dar-lhe vida com graça e inteligência. Como autor, essa sua maestria se expande: os tipos são postos no mundo e, mais do que no mundo, numa trama — e o seu criador (eu quase escrevi Criador, pois não deixa de ser um trabalho de deus) se solta. Toda a ficção do Jô é feita de grandes personagens envolvidos em grandes tramas. Os tipos e a trama deste livro são especialmente engenhosos e através deles o autor nos dá um retrato saboroso do Rio de Janeiro no fim dos anos 1930 e começo do Estado Novo — o Rio das vedetes que davam e dos políticos que tomavam, das estrelas do rádio e das corridas de “baratinhas”. E nesse mundo em ebulição chega uma figura portuguesa, saída de um poema do Fernando Pessoa, para elucidar o estranho e terrível caso das gordas desaparecidas que… Mas não vou revelar mais nada. Um dos prazeres da literatura policial é ir acompanhando o desvendar de uma trama, levados de revelação a revelação por alguém com a fórmula exata para nos enlevar — e enredar. No caso do Jô, quem nos guia é um autor que já provou seu domínio do gênero, e que aqui se supera na perfeita dosagem de invenção, humor e erudição que nos prende desde a primeira página, desde a epígrafe. Prepare-se para ser enlevado e enredado, portanto. E prepare-se para outras sensações. Só posso dizer que a trama deixará você, ao mesmo tempo, horrorizado e com fome. E que depois da sua leitura os Pastéis de Santa Clara jamais significarão o mesmo.