Quando conversamos sobre literatura com alguém, é inevitável que em algum momento seja debatido sobre a construção e o desenvolvimento dos personagens. Se eles são interessantes, complexos, crescem e amadurecem ao longo da trama, enfim, vários pontos que são usados para questionar o quão reais aqueles personagens são.

É por isso que muitos aplaudem tramas como a das Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, e de sua adaptação feita pela HBO, Game of Thrones, pela complexidade daqueles personagens, que são tão bem desenvolvidos que parecem pessoas reais. O problema está que parece que muitos esqueceram que as ditas pessoas reais também são complexas.

Numa sociedade plural e tão diversa quanto a nossa, o debate político e de ideias parece preso a uma dicotomia que se existisse na literatura seria massacrada pelos mais diferentes críticos. Ou a pessoa é de direita ou a pessoa é de esquerda, ou ela é coxinha ou ela é esquerdopata, se ela discorda de um, certamente concorda com outro. O que acontece é que em meio a discussões acaloradas e simplistas nas redes sociais e aquele confronto doentio nos comentários de qualquer portal de notícias (em qualquer notícia, aliás), coloca-se cada vez mais as pessoas em rótulos simples que somem com a tal complexidade que adoramos ver na literatura. Transformamos o outro em personagens rasos e mal construídos daquele tipo de ficção que damos apenas 1 ou 2 estrelas no Skoob ou no GoodReads e nos arrependemos de ter perdido nosso tempo lendo.

Basta ver a repercussão do primeiro comercial feito pela Amazon. Para uns, a empresa não gostava de São Paulo — oi? — e clamavam por sua saída do Brasil ou prometiam nunca mais comprar nada nela, para outros era um comercial genial que provocava um prefeito. No final, o comercial fez aquilo que a literatura mais faz: provoca. Provocou um lado e provocou outro, convidando a todos para um debate que poderia ter sido sensacional e que trouxesse reflexões importantes sobre o acesso a literatura na cidade e outras iniciativas parecidas, mas se tornou um bate boca insosso de nós é eles. E em tempos que se constroem tantos muros, físicos ou não, o papel da literatura é de criar pontes, iniciar diálogos e provocar nós, leitores, a agir. Tudo isso por um simples motivo: o cerne da literatura é a empatia.

Uma consulta rápida ao dicionário vai definir que empatia é a “ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias; quando alguém, através de suas próprias especulações ou sensações, se coloca no lugar de outra pessoa, tentando entendê-la.” A leitura nada mais é do que esse exercício constante de empatia, de se pôr no lugar do outro, de levar sua história, seu desenvolvimento como personagem, para entender o que o colocou naquele ponto da narrativa, de se ocupar pensando em sua complexidade e entender os porquês dele.

Numa sociedade tão preocupada em ver personagens com várias nuances, com vários tons de cinza, as pessoas reais são simplificadas em apenas uma camada. Porém, assim como a literatura, a vida real não é preto no branco; precisamos apenas nos lembrar disso com mais frequência.

Imagem de capa: Martin Claret