A franquia multibilionária de George Lucas cresceu muito mais do que ele poderia imaginar, conquistando fãs ao longo de quase quatro décadas, mas ainda há uma dúvida no ar: Star Wars é ficção científica?

Alienígenas, robôs e naves ≠ Sci-fi

O gênero de ficção científica costuma ser associado à presença de naves, robôs, alienígenas e várias outros tipos de tecnologia avançada, porém só isso não faz com que um livro ou um filme se encaixe no gênero.

A realidade é que a definição desse gênero é discutida até hoje, ainda que tenha se chegado a uma base de que o sci-fi deve explicar-se por meio de argumentos científicos, da ciência “real” ou de uma ciência fictícia, para justificar o que acontece com seus personagens, os objetos e o cenário no qual se desenvolve a história. A Lady Sibilla, do site Momentum Saga, define a ficção científica como um “estilo literário que lida com a ciência, tanto real quanto imaginada, e seu impacto numa determinada sociedade”.

A premiada autora de ficção científica e fantasia Ursula K. Le Guin escreve na introdução de A Mão Esquerda da Escuridão, editado no país pela Aleph, alguns pontos importantes que devem ser levados na leitura de livros do gênero: “A ficção científica não prevê, descreve” e a de que “Escritores podem usar todo tipo de fatos para sustentar sua coleção de mentiras.”

A ficção científica costuma ser descrita, até mesmo definida, como extrapolação. Espera-se que o escritor de ficção científica tome uma tendência ou fenômeno do presente, purifique-o e intensifique-o para efeito dramático e estenda-o ao futuro. “Se isto continuar, eis o que acontecerá.” Faz-se uma previsão. […] Felizmente, embora a extrapolação seja um elemento da ficção científica, não se trata, de forma alguma, de sua essência. A extrapolação é racionalista e simplista demais para satisfazer a mente criativa, seja a do leitor ou a do escritor. Variáveis são o tempero da vida.

Toda ficção é metáfora. Ficção científica é metáfora. O que a separa de formas mais antigas de ficção parece ser o uso de novas metáforas, tiradas de alguns grandes dominantes de nossa vida contemporânea — ciência, todas as ciências, entre elas a tecnologia e as perspectivas relativista e histórica. A viagem espacial é uma dessas metáforas; assim como a sociedade alternativa, a biologia alternativa; o futuro também. O futuro, em ficção, é uma metáfora.

Levando em conta todos esses elementos e analisando o universo de Star Wars construído no decorrer dos sete episódios, podemos chegar a conclusão de que estamos diante de uma história que pende mais para o lado da fantasia do que para o da ficção científica.

Nem Lucas, nem Abrams tiveram a preocupação de fundamentar cientificamente os fatores desse universo, os elementos associados à ficção científica estão ali apenas como um pano de fundo para a história.

Os Jedis podem ser considerados apenas magos espaciais, sendo a Força um tipo de magia (exclua aquela explicação pobre dos midi-chlorians dada na trilogia prequel), os Ewoks poderiam ser anões, e vários outros elementos da série se trocados por elementos fantásticos não alteram a essência da série. Na realidade, a própria introdução dos filmes da saga — Há muito tempo, numa galáxia muito muito distante… — que contextualiza os acontecimentos daquele universo em relação ao mundo real remete ao clássico “Era uma vez…” dos contos de fadas.

A ficção científica reflete nosso mundo, a fantasia espacial transcende nosso mundo. Ela é nostálgica e romântica, e mais livremente aventurosa, e pega a tecnologia como um mero ponto de partida. Joga as leis da física em nome da diversão. — Chris Taylor em “Como Star Wars Conquistou o Universo”

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Fazendo a clássica comparação entre Star Trek e Star Wars, acho que fica ainda mais clara a falta de elementos no segundo para embasar a explicação dos elementos que aparecem no decorrer dos filmes. Já o primeiro, pelo contrário, tem roteiros que giram exatamente ao redor dessa explicação. E isso não diminui um frente ao outro ou torna Star Wars ruim, apenas os encaixam em gêneros diferentes.

Porém, Star Wars não se resume a sete filmes e é aí que acontece o plot twist desse texto.

Expandindo as fronteiras de Star Wars

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Antes mesmo da franquia ser comprada pela Disney e da proposta de criação da maior história transmídia já feita, Star Wars teve uma produção gigantesca em outras mídias, fora das salas de cinema. Livros, séries de TV, games, quadrinhos e vários outros meios foram usados para contar a história daquele universo.

Estas histórias, escritas por George Lucas ou não, expandiram o universo criado, não só apresentando detalhes históricos e geográficos de planetas e desenvolvendo tramas anteriores ou futuras de personagens conhecidos, mas fundamentando cientificamente os elementos da saga.

Por exemplo, em “Sombras do Império”, livro do selo Legends já publicado no Brasil, temos detalhes da construção de um sabre de luz, da mesma forma que se reuniram informações e uma rápida pesquisa no Google revela infográficos explicando cada parte desse.

A franquia cresceu de uma maneira e muitas vezes dados levantados por fãs e entusiastas da série passaram a fazer parte do cânone ou foram utilizados nas obras do antigo Universo Expandido, que hoje recebe o selo de Legends.

Enfim, o universo da série e vários de seus detalhes foram tão bem explorados e fundamentados ao longo dos últimos 39 anos, que fica difícil simplesmente ignorá-los e bater o martelo de que Star Wars não é ficção científica. Ainda mais agora que a Disney cria o caminho de uma narrativa única, que leva em consideração tudo o que é produzido nas mais diferentes mídias.

Ou seja, essa é uma questão que continua em aberto e que vai depender de sua opinião pessoal e avaliação do que foi criado. Por isso, separei alguns textos e vídeos para que a discussão não pare por aqui, então, boa leitura e que a força esteja com você. 🙂