Nas montanhas da loucura de Alan Moore: Monstros, tabús e Cthulhu.

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O Halloween já passou faz muito (muito) tempo, especiais de terror já passaram a torto e direito na TV e estão todos na ressaca do ENEM (pra alguns, mais assustador que muitas obras de horror por aí), mas há espaço para mais uma obra surtada de terror. Hoje falarei de Neonomicon, obra de Alan Moore, um dos mestres dos quadrinhos, inspirada pelo trabalho de outro mestre, H.P. Lovecraft, este do horror. Publicada pela Avatar Press, a história tem teor de suspense e investigação, com momentos de horror, humor negro e em certos momentos nonsense de vergonha alheia. A edição da Panini reúne, além de Neonomicon, a curta história O Pátio“, que serve de prelúdio para os eventos vistos aqui. Os desenhos ficam à cargo de Jacen Burrows.

É importante dizer, primeiramente, que Neonomicon é um conteúdo forte, com cenas tão gráficas quanto a forma criativa que são contadas e desenvolvidas. A obra foi banida em certas comic shops do reino unido por seu conteúdo repreensível e imagens fortes. Alguns podem achar o ocorrido um exagero (e de certa forma é), mas não se pode negar que Alan Moore botou sua mente nefasta para funcionar aqui. O choque, muitas vezes é tudo que importa. Como diria o Jon Doe de SEVEN – Os Sete Crimes Capitais, “se quer que as pessoas te escutem, não dê tapinhas no ombro, é preciso acertá-las com um martelo.” E Moore nos acerta em cheio. Veja, o motivo das cenas serem tão fortes, não é pelo grafismo do desenho, cadáveres e carcaças em si (isto temos aos montes nos quadrinhos e literatura), mas sim da forma como Alan Moore trabalha as sequências, com as expectativas, ambientação e tensão, brincando com o leitor até o último momento. E a revelação de certa criatura na quarta edição é um exercício de narrativa, nos deixando tensos até o último instante, uma amostra da genialidade narrativa de Moore.

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Mas estou me adiantando. Como já mencionei, O Pátio é a primeira história deste volume. É uma HQ de 2003, publicada baseada num conto de Moore, feito para uma antologia em homenagem a Lovecraft pela própria Avatar Press. Em 2010, Moore foi chamado para continuar a história, numa minissérie de 4 partes. O autor tinha acabado de se “separar” da DC Comics por causa de “Watchmen – O Filme (mais uma ranhetice de Moore em relação a seus projetos, mas essa é outra história) e ele precisava de dinheiro. A proposta veio a calhar e ele aceitou. Assim surgia Neonomicon.

O Pátio, que serve como o prelúdio à Neonomicon, é inteligente, tenso, e desenvolve seu personagem principal de forma ácida e interessante. Aldo Sax é um detetive especial do FBI especialista em teoria da anomalia com características fascistas, nojo expresso por negros e uma visão de mundo um tanto…curiosa que investiga assassinatos e rituais relacionados de alguma forma a obra de H.P Lovecraft.  Moore pega características tabus dos contos de Lovecraft, como o sexo, racismo e rituais e os desenvolve como só ele sabe. A história é conduzida de forma genial. Em determinadas páginas, acompanhamos Aldo após o contato com Aklo, sentindo o tempo e espaço ao mesmo tempo, com a página anterior contida inteiramente na página posterior de alguma forma, como janelas de prédio, por exemplo. Só lendo para entender. A história termina de forma chocante e bizarra, ditando o tom do resto deste encadernado.

A história de Neonomicon propriamente dita tem assim início, e desta vez acompanhamos a agente Merryl Brears e seu parceiro, Gordon Lamper investigando os mesmos assassinatos ligados ao sobrenatural e obras Lovecraftianas.

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Lovecraft, Rituais e tabus

Sexo, Racismo e Rituais sempre foram aspectos muito insinuados, mas pouco trabalhados na obra de Lovecraft. Sua obra, reflexo da época em que fora escrita, são repletos de racismo e insinuações de rituais que nunca foram abordados completamente pelo mesmo. Assim como sua aversão ao sexo em si. Rituais a Cthulhu se misturavam com todos estes tabus. Com Neonomicon, Moore viu a oportunidade de se aprofundar nestes temas, explorando o legado lovecraftiano e brincando um pouco com estes mitos. Gordon, o parceiro de Brears, é negro e Moore o faz de propósito, assim como expor a mentalidade doentia de Aldo Sax, o detetive do começo numa narração em off. Nos colocando dentro da mente problemática do mesmo. Brears em si, tem problemas de auto estima e é sexualmente confusa. E como não podia ser diferente para Moore e Lovecraft, toda esta insegurança é exorcizada da única forma possível, da única forma que o autor sabe: pela expurgação do tabu. Numa sequência pesada, o leitor acompanha uma orgia sexual que serve de ritual a uma certa criatura… Nesta sequência, gêneros se misturam, com violência e cenas fortes auxiliadas por uma muleta narrativa que vem na forma de um problema visual da protagonista. Não entrarei em mais detalhes, mas a sequência termina com a inclusão (literal) de um novo membro na “festa”.

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Os vícios de Alan Moore

Apesar do aprofundamento nos temas pouco tocados na obra de Lovecraft, sente-se aqui a necessidade de Moore de incluir o sexo apenas pelo sexo em suas histórias. Sim, desta vez o uso do mesmo é justificado narrativamente, porém o uso desse tema tem soado cada vez mais como uma compulsão do que como necessidade do enredo. E, como na maioria de seus últimos trabalhos, aqui, o autor vai longe demais. Muitas vezes, no meio da história (que se arrasta em momentos) Moore utiliza o humor negro de forma equivocada, com personagens caricatos, que soam mais como a mente suja de Moore se expondo através deles do que pensamentos dos mesmos de acordo com o que foi desenvolvido de sua personalidade até aqui. E devo dizer que a vergonha alheia máxima foi ver o peso dramático de certa sequência ser jogado inteiramente no lixo com a “cena” que procede, com certa personagem, que há pouco havia sofrido uma série de estupros, fazendo comentários engraçadinhos enquanto pratica certo ato sexual em certa criatura… Neonomicon tem muito disso. Momentos que variam entre o genial e o vergonhoso, o “Alan Moore escritor” e o “Alan Moore embolsando um cheque“. O saldo positivo fica maior que o negativo, no final. No entanto, a impressão que fica é que Moore nunca consegue ao certo atingir o nível narrativo e tensão vistos nas 50 primeiras páginas. Uma pena.

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Por último, a arte de Jacen Borrows não compromete. Não é algo que se encha os olhos, mas cumpre o seu papel. Percebe-se que o artista tem aquele traço um pouco genérico de “revistas de aula de desenho”, mas o artista merece créditos por fazer jus visualmente à escrita de Moore. São criaturas de vários tipos e cenas que exigem segurança no traço, como a própria cena da orgia e outras que são psicodélicas e se passam em universos sobrenaturais e outras dimensões.

A edição da Panini tem um bom acabamento, com acabamento de brochura e capa quadrada. Só um adendo para o preço, os 25 reais iniciais não compensam tanto para um material que não é capa dura. Sim, o material é menos acessível ao leitor acostumado com a vertente Marvel/DC, que é mais comercial e tem menos chance de empilhar nas prateleiras, mas atualmente deve-se achar a obra por um preço bem melhor.

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Resumindo…

No fim, Neonomicon é um prato cheio pra quem quer mais de H.P Lovecraft, principalmente pelas mãos de um autor como Alan Moore. Arte competente e história tensa na medida, Moore peca apenas ao ir longe demais em relação a temas mais complexos que mereciam um pouco mais de desenvolvimento e menos de humor negro. Com momentos que variam entre o genial e o vergonhoso, o “Alan Moore escritor” e o “Alan Moore embolsando um cheque”, o saldo positivo fica maior que o negativo, no final. No entanto, a impressão que fica é que Moore nunca consegue ao certo atingir o nível narrativo e tensão vistos nas 50 primeiras páginas.

Mas Alan Moore levemente medíocre tem mais conteúdo que a maioria do material colocado nas bancas.

Editora: Panini
Ano: 
201
Autores:
Alan Moore e Jacen Burrows
Páginas: 188
Sinopse: Neonomicon, obra escrita pelo mago inglês Alan Moore com arte de Jacen Burrows. O material é o primeiro trabalho em quadrinhos de Moore lançado nos Estados Unidos pela Avatar Press. Na obra, misteriosos assassinatos atraem a atenção do FBI e, durante a investigação, revelações indicam coincidências muito estranhas. Para chegar à verdade, um expert na revolucionária Teoria da Anomalia envolve-se em uma missão sob disfarce que o leva a um clube que abriga uma seita suspeita possivelmente envolvida com os crimes. Mas o rumo sobrenatural dos acontecimentos exige a presença de dois outros investigadores que serão levados ao extremo do horror e aos limites da realidade como a conhecemos.