A vida é cheia de coincidências e curiosidades. Por exemplo, Aldous Huxley – autor de Admirável Mundo Novo – ensinou Francês durante um ano no Eton College e um de seus alunos foi Eric Blair, que mais tarde tornou-se autor de outra clássica (e aclamada) distopia, 1984. E quando lançou este livro, Orwell pediu para os editores enviarem uma cópia para seu antigo professor, que lhe escreveu uma carta elogiando pelo seu trabalho magnífico na trama protagonizada por Winston Smith. Em seguida, Huxley explica os motivos que acha que torna mais provável a criação de uma sociedade mais parecida com a de Admirável Mundo Novo; embora muitos usem esta passagem para criar uma espécie de “rixa” entre os autores, penso que Aldous Huxley apenas dá início a um debate sobre o futuro da sociedade com outro autor que imaginou este futuro de uma forma diferente.

Atualmente, a obra dos dois autores ainda é editada no país: Aldous Huxley é editado pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, e a bibliografia de Orwell sai pela Companhia das Letras.

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Peguei o texto original do site Open Culture (link aqui) e resolvi traduzir, pois não encontrei em local algum em português. Caso você encontre algum problema ou erro na tradução, não se esqueça de deixar nos comentários. 😉


Wrightwood. Cal.

21 de Outubro de 1949

Caro Sr. Orwell,

Foi muito gentil da sua parte dizer a seus editores para me enviarem uma cópia do seu livro. Chegou quando eu estava no meio de um trabalho que exigia muita leitura e consulta de referências; e uma vez que a visão torna necessário que eu racione as minhas leituras, tive que esperar um longo tempo antes de poder embarcar em 1984.

boot_1984

Huxley faz referência à famosa frase de 1984: “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.”

Concordando com tudo o que os críticos têm escrito, eu não preciso lhe dizer, mais uma vez, o quão bom e o quão profundamente importante este livro é. Posso falar ao invés do que o livro aborda – a revolução definitiva? Os primeiros indícios de uma filosofia da revolução definitiva – a revolução que está além da política e da economia e que almeja a total subversão da psicologia e fisiologia do indivíduo – são encontrados no Marquês de Sade, que se considerava o continuador, o consumador, de Robespierre e Babeuf. A filosofia da minoria dominante em 1984 é um sadismo que tem sido levado à sua conclusão lógica, transcendendo o sexo e o negando. Se, de fato, a política de “bota-na-cara” continuará indefinidamente me parece duvidoso. Minha crença é de que a oligarquia dominante encontrará maneiras menos árduas e com menos desperdícios de governar e de satisfazer o desejo de poder, e que essas formas se assemelharam àquelas que eu descrevi em Admirável Mundo Novo. Eu tive a oportunidade, recentemente, de observar a história do hipnotismo e magnetismo animal, e tenho ficado muito impressionado com o modo em que, durante cento e cinquenta anos, o mundo recusou a levar a sério o conhecimento das descobertas de Mesmer, Braid, Esdaile, e os outros.

Parcialmente por causa do materialismo predominante e em parte devido a respeitabilidade, os filósofos e homens da ciência do século XIX não estavam dispostos a investigar os fatos mais estranhos da psicologia para homens práticos, como os políticos, soldados e policiais, para aplicar no campo governamental. Graças a esta ignorância involuntária dos nossos pais, o advento da revolução definitiva foi postergado por cinco ou seis gerações. Outro golpe de sorte foi a inabilidade de Freud de hipnotizar com êxito e a consequente depreciação do hipnotismo. Isso atrasou a aplicação geral do hipnotismo à psiquiatria por, pelo menos, quarenta anos. Mas agora a psicanálise está sendo combinada com a hipnose; e a hipnose tem sido fácil e extensível indefinidamente por meio do uso de barbitúricos [N.T. – os barbitúricos são substâncias depressoras do sistema nervoso central e são  usadas como antiepilépticos e hipnóticos, tendo sido uma das drogas mais usadas contra a insônia], que induzem um estado hipnótico e sugestionável mesmo nos sujeitos mais obstinados.

Dentro da próxima geração eu acredito que os governantes do mundo descobrirão que o condicionamento infantil e a narco-hipnose são mais eficientes, como instrumentos da administração pública, que porretese prisões, e que o desejo de poder pode ser tanto  completamente satisfeito ao sugerir às pessoas o amor pela servidão, quanto por chicoteá-las e chutá-las à obediência. Em outras palavras, sinto que o pesadelo de 1984 é destinado para infletir o pesadelo de um mundo que tem mais semelhança com o que eu imaginava em Admirável Mundo Novo. A alteração será provocada como um resultado da necessidade de uma eficiência maior. Enquanto isso, é claro, pode haver um uma  guerra biológica ou atômica de grande escala – caso em que teremos pesadelos de tipos diferentes e dificilmente imagináveis.

Obrigado mais uma vez pelo livro.

Atenciosamente,

Aldous Huxley