Hoje é o Dia Internacional da Mulher e, para comemorar isso, existe maneira melhor do que conhecermos um pouco mais sobre algumas autoras e seus livros? (Essa ideia foi do João. Achei genial. Então, cá estou). Sendo assim, decidi escrever sobre uma das minhas autoras favoritas nos últimos tempos! 

Senhoras e Senhores, conheçam Gillian Flynn!

Imagem: Divulgação

Formada em jornalismo, escritora, roteirista, e ex-crítica televisiva da Entertainment Weekly, autora do que foi considerado um dos maiores fenômenos literários de 2012, também roteirista da adaptação desse livro para o cinema e vencedora de diversos prêmios relacionados a esse filme, Garota Exemplar.

Gillian é autora de três livros, considerados bestsellers em seu país de publicação, os Estados Unidos, e de um conto, lançado em 2015, sua última obra publicada até o momento e o que chama atenção em suas obras é o papel da mulher: sempre protagonista, com conflitos interessantes e bem construídos. 

As mulheres de Gillian Flynn são mulheres reais. Elas são profundas, tem nuances, tem seu lado ruim e seu lado bom, tem características fortes e bem marcadas. Ela escreve sobre mulheres que poderiam ser sua vizinha ou sua colega de trabalho. E, em minha opinião, isso é o que brilha na obra dela.

Num universo literário onde faltam personagens femininas que pareçam realmente reais e fujam do estereótipo “estou aqui apenas para fazer par romântico e ser salva pelo herói”, Gillian faz até com que suas personagens secundárias sejam inteligentes e interessantes, que tenham uma história por trás de suas ações, que não estejam ali para só servir de apoio à história.

A própria autora já falou sobre isso. Para ela, na literatura, existe uma falta de mulheres (principalmente vilãs) bem construídas:

“EU PARTICULARMENTE LAMENTO A FALTA DE VILÃS. BOAS VILÃS, VILÃS POTENTES. NÃO MULHERES MAL HUMORADAS QUE FALAM SOBRE HOMENS E SAPATOS, NÃO MÃES CALMAS E FOFOQUEIRAS, NÃO VILÃS MEGERAS DE NOVELA. ESTOU FALANDO SOBRE VILÃS VIOLENTAS, MALDOSAS, ASSUSTADOS. NÃO ME DIGA QUE VOCÊ NÃO CONHECE ALGUMAS.”*

E ela está certa. Eu, particularmente, não me lembro de ter lido um livro onde o antagonista era uma mulher. E, se a antagonista era uma mulher, era uma vilã que não chegava aos pés de bons vilões da literatura (estou falando de você, Humbert Humbert). Gillian, de alguma maneira, conseguiu incorporar estes traços em suas “heroínas”. São elas:

Camille Preaker, uma jornalista traumatizada que volta à sua cidade natal para investigar um assassinato cruel, em Objetos CortantesLibby Day, que presenciou o assassinato de toda a sua família quando ainda era criança e agora busca uma maneira de conseguir dinheiro e sobreviver à falência em Lugares Escuros;  Amy Elliot Dunne, a linda esposa perfeita de Nick Dunne em Garota Exemplar (resenha), que desaparece em seu quinto aniversário de casamento; E a Mulher Sem Nome que teve que aprender a se virar sozinha muito cedo e agora finge ser uma vidente em O Adulto (resenha).

Amy, de “Garota Exemplar” | Imagem: Divulgação

São mulheres com características fascinantes e é impossível não se identificar pelo menos um pouco com alguma delas. Todas lidam com horríveis e intensificados traumas de infância, que refletem em suas ações por toda a vida adulta: Amy por ser retratada como uma garota perfeita durante toda sua infância, Libby por presenciar o assassinato de toda a sua família com pouca idade, Camille ao lidar com a relação conflituosa com a mãe e a morte de sua irmã mais nova e a Mulher Sem Nome, que desde jovem teve que aprender a ser independente e a ganhar o próprio dinheiro.

E todas não conseguem escapar disso ao crescer: Amy continua forçada aos padrões impostos durante seu casamento com Nick. Ela ainda se obriga a ser a “garota exemplar” por que, desta maneira, ele vai continuar gostando dela. Libby busca alguma maneira de se livrar da falência, mas, para isso, é obrigada sempre a se voltar para o passado que ela tenta esquecer. Camille se vê passando pela mesma situação que passou durante sua infância com sua irmã mais nova. A Mulher Sem Nome, de O Adulto (curiosidade: Gillian escreveu este conto a pedido de George R. R. Martin, o autor de As Crônicas de Gelo e Fogo), se vê repetindo as maquinações aprendidas com sua mãe anteriormente.

São mulheres, cercadas por mulheres e que convivem com mulheres. Libby viu a morte da mãe e das irmãs, Camille, a de sua irmã mais nova, Amy e A Mulher Sem Nome viram as mortes figurativas delas mesmas, por meio de maus tratos psicológicos e físicos, por meio de mentiras que elas foram obrigadas a contar e que as fizeram criar outras identidades que não eram de nenhuma das duas.

É como Amy diz em um dos trechos do livro:

“[…] EU ESTAVA FINGINDO, COMO MUITAS VEZES FAZIA, FINGINDO TER UMA PERSONALIDADE. NÃO CONSIGO EVITAR, FOI O QUE SEMPRE FIZ: ASSIM COMO ALGUMAS MULHERES TROCAM DE ESTILO REGULARMENTE, EU TROCO DE PERSONALIDADE. QUAL PERSONA PARECE BOA, QUAL É COBIÇADA, QUAL ESTÁ EM VOGA? ACHO QUE A MAIORIA DAS PESSOAS FAZ ISSO, APENAS NÃO ADMITE, OU SE ACOMODA EM UMA PERSONA PORQUE É PREGUIÇOSA OU BURRA DEMAIS PARA MUDAR.”

São mulheres como eu e você, que está lendo este texto.

E, após ler todos os livros de Gillian Flynn, eu diria que finalmente ela conseguiu nos dar o que ela queria: pessoas assustadoras e perturbadas e com as quais, de uma maneira ou outra, nos identificamos, até por que, ninguém gosta de personagens perfeitos, pois eles não condizem com a realidade em que vivemos.

Então, vamos aproveitar o dia para comemorar as mulheres reais. As que, assim como no mundo ficcional de Gillian, enfrentam os papéis que lhe foram impostos com coragem e heroísmo, lutam contra aspectos que as atormentam e ainda assim conseguem chegar vivas e resistentes ao fim do dia. 

Feliz dia da Mulher a todas nós!


* I particularly mourn the lack of female villains — good, potent female villains. Not ill-tempered women who scheme about landing good men and better shoes … not chilly WASP mothers … not soapy vixens (merely bitchy doesn’t qualify either). I’m talking violent, wicked women. Scary women. Don’t tell me you don’t know some.