A ficção científica é um dos gêneros mais difíceis de se definir, afinal ele engloba uma série de obras que aparentam ser completamente diferentes que tem temáticas e estilos distintos, o que torna a definição do que é e do que não é sci-fi algo até que bastante pessoal. Assim, reuni sete visões diferentes sobre o que é a ficção científica de alguns de seus principais autores do século XX, como Clarke, Asimov, Le Guin e Dick, lembrando que os créditos de onde foram retiradas cada citação se encontram ao final da postagem.

Ray Bradbury

Ray Bradbury

Embora tenha escrito várias obras, Ray Bradbury é mais conhecido por ser o autor de duas obras emblemáticas do gênero, Fahrenheit 451 e As Crônicas Marcianas. Estadunidense, Bradbury nasceu em 1920 e começou a escrever já aos 11 anos de idade, além disso sempre foi um leitor voraz, colocando autores como Verne, Poe e Burroughs como algumas de suas principais influências. No Brasil, sua obra é publicada pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros.

[A ficção científica é] um campo que estendeu a mão e abraçou todos os setores da imaginação humana, cada esforço, cada ideia, cada desenvolvimento tecnológico, e cada sonho. […]Pois, acima de tudo, ficção científica, tão no passado quanto Platão tentando descobrir uma sociedade adequada, tem sido sempre uma fábula que ensina moralidade… Não há um problema grande esta tarde que não seja um problema de ficção científica. Ficção científica, então, é a ficção das revoluções. Revoluções no tempo, espaço, medicina, viagem e pensamento… Acima de tudo, ficção científica é a ficção de homens e mulheres humanos, de sangue quente, às vezes elevados e às vezes esmagados pelas suas máquinas. […] Então ficção científica, nós agora vemos, está interessada em mais do que ciências, mais do que máquinas. Esse mais é sempre os próprios homens e mulheres e crianças, como eles se comportam, como eles esperam se comportar. Ficção científica é apreensiva sobre os futuros modos de se comportar, assim como das futuras construções de metal. […] A ficção científica imagina as ciências antes que elas brotem para fora das sobrancelhas dos homens pensantes. Mais, os autores no campo tentam adivinhar máquinas que são frutos dessas ciências. Então nós tentamos imaginar a forma como a humanidade irá reagir a essas máquinas, como as usará, como crescerá com ela, como será destruída por elas.

Outra das definições do autor é essa:

Ficção científica é, de fato, estudos sociológicos do futuro, coisas que o escritor acredita que irão acontecer por somar dois mais dois.

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Isaac Asimov

Nascido na Rússia, o Bom Doutor da ficção científica é considerado um dos seus três grandes autores, ao lado de Heinlein e Clarke. Isaac Asimov escreveu e editou mais de 500 títulos diferentes e vários de seus livros figuram como importantes marcos do gênero, como Eu, Robô e as séries dos Robôs, Fundação e Império Galáctico. Aqui no Brasil Asimov é editado pela editora Aleph, que, inclusive, lança agora o primeiro romance do autor, Pedra no Céu.

Ficção científica pode ser definida como o ramo da literatura que lida com a reação dos seres humanos às mudanças na ciência e tecnologia.

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Arthur C. Clarke

Outro dos autores da tríade do sci-fi (e provavelmente o meu favorito) é o Arthur C. Clarke, autor de vários romances importantes como O Fim da Infância, Encontro com Rama e As Fontes do Paraíso. Ficou mais conhecido pela sua parceria com o Kubrick, que originou o filme e o livro de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Atualmente suas obras são publicadas no Brasil pela editora Aleph.

Ficção científica é algo que poderia acontecer – mas você não iria querer isso. Fantasia é algo que não poderia acontecer – embora muitas vezes você apenas deseja que possa.

Em uma entrevista para o L.A. Review of Books, em 1995, o autor quando é questionado sobre o porquê a ficção científica parecia tão presciente, ou seja, premonitória, ele responde e define o gênero mais uma vez:

Ficção científica não tenta prever. Ela extrapola. Apenas diz “E se?”, não o que vai ser? Poque você nunca pode prever o que poderá acontecer, especialmente na política e na economia. Você pode, até certo ponto, prever na esfera tecnológica – voo, viagem espacial, todas essas coisas, mas mesmo lá nós perdemos realmente mal em algumas coisas, como computadores. Ninguém imaginava o impacto incrível dos computadores, apesar de pensar em cérebros de robô de vários tipos – meu falecido amigo, Isaac Asimov, por exemplo, imaginou – mas a ideia de que um dia toda casa teria um computador em cada cômodo e que um dia, provavelmente, teríamos computadores embutidos em nossa roupa, ninguém nunca pensou nisso.

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Robert A. Heinlein

Encerrando a tríade do gênero, Robert A. Heinlein não só é considerado o pai da ficção científica militar por causa de seu romance Tropas Estelares (tem resenha aqui no site), como também ganhou o prêmio Hugo pelo mesmo livro. Publicado no país pela Aleph, um de seus livros mais famosos, Um Estranho numa Terra Estranha, está previsto para sair entre o final desse ano e o primeiro semestre do próximo.

Especulação realista sobre possíveis eventos futuros, baseada solidamente em conhecimento adequado do mundo real, passado e presente, e em uma compreensão completa da natureza da importância do método científico. Para fazer esta definição cobrir toda a ficção científica (ao invés de ‘quase toda’) é necessário apenas eliminar a palavra ‘futuros’.

John W. Campbell Jr.

John W. Campbell Jr.

John W. Campbell Jr. foi uma das forças fundamentais para o estabelecimento da chamada Era de Ouro da ficção científica, comandando o editorial da revista Astounding Science Fiction a partir de 1937. Suas obras no momento não são editadas no país. Sua definição mais famosa é “ficção científica é o que eu digo que é” (talvez ele tenha ficado um pouco megalomaníaco?), mas escolhemos outra para colocar nesse post, que ele escreveu para a introdução da série Venus Equilateral, de George O. Smith.

Metodologia científica envolve a proposição de que uma teoria bem construída não só explicará cada fenômeno conhecido, mas também irá predizer fenômenos novos e ainda não conhecidos. Ficção científica tenta fazer a mesma coisa – e escrever, em forma de história, o que os resultados parecem quando aplicados não só às máquinas, mas à sociedade humana também.

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Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin é uma das maiores romancistas de sua geração, escrevendo algumas das mais fantásticas obras de ficção científica e de fantasia. Conquistou até hoje cinco prêmios Hugo, seis Nebula e detém o título de escritora mais premiada do Locus, com nove prêmios, além de ter recebido a National Book Foundation Medal for Distinguished Contribution to American Letters, em 2014, pelo conjunto de sua obra.

No Brasil, seu romance sci-fi A Mão Esquerda da Escuridão é editado pela Aleph (aliás, a definição abaixo vem da introdução desse livro), que também deverá lançar Despossuídos em algum momento desse ano ou no início do próximo. Sua obra mais famosa de fantasia é o Ciclo de Terramar, O Feiticeiro de Terramar, e o primeiro volume dela será publicado em breve pela editora Arqueiro.

A ficção científica costuma ser descrita, até mesmo definida, como extrapolação. Espera-se que o escritor de ficção científica tome uma tendência ou fenômeno do presente, purifique-o e intensifique-o para efeito dramático e estenda-o ao futuro. “Se isto continuar, eis o que acontecerá.” Faz-se uma previsão. […] Felizmente, embora a extrapolação seja um elemento da ficção científica, não se trata, de forma alguma, de sua essência. A extrapolação é racionalista e simplista demais para satisfazer a mente criativa, seja a do leitor ou a do escritor. Variáveis são o tempero da vida. […] Toda ficção é metáfora. Ficção científica é metáfora. O que a separa de formas mais antigas de ficção parece ser o uso de novas metáforas, tiradas de alguns grandes dominantes de nossa vida contemporânea — ciência, todas as ciências, entre elas a tecnologia e as perspectivas relativista e histórica. A viagem espacial é uma dessas metáforas; assim como a sociedade alternativa, a biologia alternativa; o futuro também. O futuro, em ficção, é uma metáfora.

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Philip K. Dick

Philip K. Dick escreveu várias obras marcantes dentro do gênero, que normalmente brincam com a questão sobre o que é real e a ideia de outras dimensões. Seus livros e contos inspiraram várias adaptações para o cinema e a televisão como Minority Report, Blade Runner, O Vingador do Futuro e O Homem Duplo. É outro autor dessa lista editado no Brasil pela Aleph, que além de publicar vários de seus romances e contos, também publicou uma biografia sobre o autor, Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, escrita por Emmanuel Carrère e traduzida por Daniel Luhmann.

Eu vou definir ficção científica, primeiramente, por dizer aquilo que a sci-fi não é. Ela não pode ser definida como ‘uma história (ou romance, ou peça) ambientada no futuro’, uma vez que existe uma coisa como a aventura espacial, que se passa no futuro, mas não é ficção científica; é apenas isso: aventuras, lutas e guerras no futuro, no espaço, envolvendo tecnologia super avançada. Por que, então, isso não é ficção científica?  Parece ser, e Doris Lessing (por exemplo) supõe que é. No entanto, aventura espacial não tem a nova ideia distinta que é o ingrediente essencial. Além disso, pode existir ficção científica ambientada no presente: a história ou romance de mundo alternativo. Então se nós separamos o sci-fi do futuro e também da tecnologia ultra-avançada, o que temos, então, que pode ser chamado de ficção científica?

Esse mundo deve diferir do determinado em pelo menos um caminho, e esse caminho deve ser o suficiente para originar eventos que não poderiam ocorrer em nossa sociedade – ou em qualquer sociedade conhecida do presente ou do passado. Deve haver uma ideia coerente envolvida nesse deslocamento; isto é, o deslocamento deve ter um conceito, não meramente ser trivial ou bizarro – esta é a essência da ficção científica, o deslocamento conceitual no interior da sociedade, de modo que, como resultado, uma nova sociedade é gerada na mente do autor.

Fantasia envolve aquilo que a opinião comum considera como impossível; ficção científica envolve aquilo que a opinião comum considera como possível sob as circunstâncias certas.


Abaixo, confira de quais obras foram retiradas essas definições, lembrando que tanto a do Campbell Jr. e a do Clarke, quanto a da Ursula K. Le Guin já estão no texto.

  1. Ray Bradbury: Livro Science Fact/Fiction, publicado pela Scott, Foresman and Company, cuja introdução é assinada pelo autor.
  2. Isaac Asimov: Trecho de How Easy to See the Future, matéria de Asimov para o volume 84 da Natural History, de Abril de 1975.
  3. Robert A. Heinlein: Ensaio “Science Fiction: It’s Nature, Faults and Virtues“, parte de The Science Fiction Novel: Imagination and Social Criticism.
  4. Philip K. Dick: Introdução do próprio autor para Philip K. Dick: The Collected Stories, vol. 1.

Ah! Na imagem de abertura desse post usamos elementos retirados da capa da edição mais recente publicada pela Aleph de Eu, Robô, do Asimov, e alusões à capa de Fundação,  escrito pelo mesmo autor e lançado pela mesma editora.