Não é à toa que David Bowie ganhou o título de Camaleão do Rock, afinal, o músico era um verdadeiro mutante e se transformou a cada trabalho lançado. Porém, mais do que a imprevisibilidade, o grande trunfo de Bowie foi saber transformar tudo em que tocava em arte, inclusive a sua morte.

Lançado no dia do aniversário de 69 anos do artista e apenas dois dias antes de sua morte, ★/Blackstar (2016) é um disco diferente de tudo o que Bowie já fez – o que não é pouca coisa -, ao mesmo tempo em que coloca o artista na vanguarda com a sua estranheza provocativa, explorada principalmente no clipe de Blackstar, faixa que nomeia e abre o disco.

Assim, logo de cara somos confrontados com com uma sonoridade mais densa que a do disco anterior. Épica e intrigante, a canção se desdobra em diferentes partes que são extremas em suas diferenças, acenando a épocas anteriores do artista, como a sua fase eletrônica e o habitual rock, ao mesmo tempo em que é permeada por jazz. Apostando no caráter experimental, cada trecho se expande toda vez que você ouve a música e apresenta mais uma faceta do músico para adicionar à sua longa carreira camaleônica. Além disso, o aceno no clipe à Major Tom – cuja história é contada por Bowie em Space Oddity e Ashes to Ashes – fecha o ciclo iniciado em seu início de carreira.

Anteriormente lançadas como single em 2014 e regravadas com maior influência do jazz, ‘Tis a Pity She Was a WhoreSue (Or in a Season of Crime) são canções interessantes e com uma tensão crescente, que tem momentos que nos jogam em um tipo de sonoridade que lembra uma grande sessão de free jazz. Enquanto isto, Dollar Days é, provavelmente, a canção menos experimental de todo o disco e poderia estar em algum dos álbuns anteriores do músico com alguma sonoridade levemente alterada.

Os sintetizadores – usados extensamente ao longo da carreira de Bowie – ganham os holofotes na diferente faixa Girl Loves Me, que aposta em uma batida fora do comum e na interpretação do músico para uma letra que resgata gírias do nadsat, vocabulário criado por Anthony Burgess para o clássico livro Laranja Mecânica. Também é aqui que a influência do trabalho de Kendrick Lamar fica mais evidente no .

Resgatar a faixa instrumental A New Career In A New Town, de Low (1977), para reinventá-la para a última música do disco, de modo mais orgânico, é trazer Bowie para dar o seu adeus da forma mais bela possível, enquanto ainda se questiona sobre o próprio mistério que se tornou.

Entretanto, nada soa tanto como a derradeira despedida de Bowie quanto Lazarus, que ganhou clipe três dias antes da morte do artista e mostra o Starman se recolhendo para dentro de um armário, após trazer as duas diferentes faces do homem que gravou este disco: o artista criativo, cheio de ideias para explorar, e um homem que batalhava contra uma doença. Em ritmo crescente, a música é nada menos que sublime e evidencia o desespero do protagonista, que tem cicatrizes que não podem ser vistas, mas sabe que será livre tal qual aquele pássaro azul.

Entre temas como mortalidade, fé e tantos outros que passaram (e passarão batidos), David Bowie mais uma vez conseguiu romper barreiras e se transformar mais uma vez, dessa vez, em uma estrela negra.

Dizem que um homem que caiu na Terra amava tanto as estrelas, que se tornou uma. Obrigado, ★.


Este é o primeiro post da nova coluna quinzenal sobre música, a Gramofone. Por isso, fique atento que o próximo texto dela sai em 24 de janeiro. Além disso, se tiver alguma dúvida ou sugestão, deixe nos comentários, porque isto ajuda muito a definir o formato da coluna. 😉