Adaptado do conto homônimo de Cornell Woolrich, Janela Indiscreta, de 1954, é um dos longas mais icônicos do britânico Alfred Hitchcock, diretor de Psicose e Um Corpo que Cai. A partir das lentes de L.B. Jefferies (ou só Jeff), um fotógrafo profissional que quebrou a perna, o diretor cria uma rede de mistérios e assassinatos que prendem o espectador à tela há mais de cinquenta anos.

A história é simples (e um tanto premonitória quando pensamos na superexposição nas redes sociais e no surgimento dos reality shows décadas mais tarde) e gira ao redor do tédio de Jeff em ficar confinado a uma cadeira de rodas sem ter o que fazer, o que faz com que ele pratique a curiosidade típica do ser humano e resolva acompanhar a vida de seus vizinhos através das lentes de sua câmera. Só que, conforme ele passa a se apegar aos personagens que vê no prédio vizinho, começa a ficar convencido de que alguém que mora ali assassinou sua esposa.

Inegável rei do suspense no cinema, Hitchcock faz aquilo que sabe melhor ao tecer uma trama marcante que une boas atuações a uma direção impecável, mostrando a habilidade que tem de construir a narrativa ao redor do limitado ponto de vista de uma única pessoa. Afinal, estamos falando de um filme gravado por um dos maiores diretores da história do cinema no seu auge e que constantemente é listado como um dos longas mais importantes do século XX, além de ter um elenco maravilhoso com James Stewart e Grace Kelly.

James Stewart, Grace Kelly e Alfred Hitchcock no set de “Janela Indiscreta”. // Créditos: Michael Ochs Archives/Getty Images

Em épocas nas quais filmes cada vez mais querem tornar tudo hiperbólico e berrar aos quatro ventos que são os maiores longas já feitos, com os melhores efeitos, o maior elenco de estrelas ou com um orçamento gigantesco, Janela Indiscreta ganha pela aparente simplicidade. Digo aparente simplicidade, porque por trás da estrutura narrativa descomplicada e os parcos cenários, há uma habilidade técnica ímpar com a câmera.

Aqui o crime não é esfregado na sua cara como em Psicose e sua icônica cena do chuveiro, é tudo uma questão de sugestão; é mais sobre expectativa e o que não está ali, do que aquilo que você está vendo em cena. É um filme que brinca com a imaginação de quem o assiste para dizer o que tem numa maleta, o que acontece por trás de uma cortina fechada.

 

A cada segundo do filme, somos testemunhas da vida alheia, assistindo um grande espetáculo de coisas que não são da nossa conta. Presos à cadeira, tal qual L.B. Jefferies, só nos resta observar passivos o desenrolar de um dos melhores suspenses já filmados.